"a-maior-função-do-homem-no-mundo-é-transformar-se-em--literatura" - Reinaldo Santos Neves

domingo, 21 de dezembro de 2025

As traças [RESENHA & divagações sobre o futuro do IG]

 


“Somente uma mulher poderia despertar nela a magia do amor.” - Pág. 76

Cassandra mais uma vez nos dita uma fotografia de um tempo, desta vez acompanhamos uma adolescente se entendendo como lésbica, descobrindo o amor, as delícias e os sangramentos de um coração que bate numa velocidade incalculável e a solidão da juventude queer LGBTQIAPN+.

“Viu-a e ela também a olhou. Foi um olhar dentro dos olhos, que se cruzou inesperadamente[…] Não foi um olhar comum. Havia algo. Uma força comunicativa, de procura, de saudade, de dizer coisas que estavam caladas no fundo da alma.” - Pág. 72

Na história acompanhamos Andréa, que se apaixona por sua professora, Berenice. Paixão essa ignorada de primeira pela profissional. Como plano de fundo temos o mergulho que a protagonista faz em direção às drogas, a lbgtfobia e morais religiosos da época além dos discursos em prol dos bons costumes, da heteronormatividade, ética e pela tradicional família brasileira que custou tanto à autora na vida real. O texto lembra e muito a biografia de Cassandra Rios, deve ser por isso que eu adoro sua escrita.

“Sou traça! Tentando passar despercebida entre os outros, sinto-me como a traça que se esconde entre as costuras dos livros para no fim morrer esmagada entre suas páginas.” - Pág. 214

Em todas as obras de Cassandra vemos o que chamam de ‘livro de empregada’ - tipo romances de folhetim -, uma linguagem franca e nada rebuscada, crua na mais sincera tradução da palavra. Sua literatura também é cinematográfica e em ‘As traças’ não é diferente, a autora nos brinda com cenas bem escritas e uma narrativa muito visual.

“E as bocas se esmagaram num beijo doido e frenético. Num movimento rápido Berenice deitou-a na cama e estendeu-se em cima dela, esfregando-se, assanhando-a, as mãos percorrendo-lhe o corpo nu.” - Pág. 166

O que mais me surpreendeu no livro em si foi o final: inesperadíssimo.









Li esse livro tem um tempo já, mas só voltei para escrever a resenha por causa da empolgação com o @clubeobscenalucidez, tesão esse que me reavivou a fraca chama que ainda me sobrava da literatura no peito, com isso veio também a mudança do espaço do sebo (esses meses têm sido uma loucura).

Enfim, espero que você tenha gostado e que me acompanhe mais por aqui,

Até breve!