"a-maior-função-do-homem-no-mundo-é-transformar-se-em--literatura" - Reinaldo Santos Neves

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Coquetel molotov [RESENHA]

 


“[…] certas coisas insistem, apesar dos tempos.” - Pág. 60

Contos fortes, distópicos e pós-apocalípticos, pandêmicos, escritos com a crueza e a sequidão de alguém que vivera tempos tão fantásticos que traz muito do real para a sua ficção. Esse é um pouco do que você verá lendo esse livrinho desvairado de Ozeias Alves.

“Minha mãe conta pros gringos que meu pai foi morto em confronto com a polícia, enquanto o guia traduz em não sei quantas línguas. Sei que é tudo mentira, mas eles acreditam e parecem gostar do que ouvem. Toda vez que os gringos visitam a comunidade, minha mãe inventa uma história diferente, cada uma mais triste que a outra, porque quanto mais triste for a história, mais dinheiro os gringos dão.” - Pág. 27

Ozeias em seu coquetel que explode em absurdos quotidianos descreve em seus textos algumas viscerais verdades, sem rodeios nem meias-palavras. Em seu livro o corte seco de sua escrita dita um passo ao obscuro fim de uma criatura vazia que um dia se chamava ser humano. A vida na comunidade, profecias religiosas, aversão ao sexo oposto - e a sexualidade de outrem -, são alguns dos temas abordados pelo autor.

“Podíamos ouvir disparos no meio da noite e já sabíamos que alguém não havia suportado o horror da nova realidade.” - Pág. 17

Aqui, em ‘Coquetel molotov’ , não tem poesia. Os homens cagam pétalas de flores, dão o cu, velhinhas morrem enquanto seus netos as invejam, a literatura é gozada no banheiro de um sarau. É um pequeno livro de insanidades que poderia escrever sobre o que de fato está correndo em 2006. Agora.

“As mãos se encontram tal qual os olhos. E se dizem: o amor é resistência, mas não resiste.” - Pág as. 133

Como disse o escritor capixaba Fernando Tatagiba sobre uma amiga, acho que os contos de Ozeias Alves fazem parte de uma ‘literatura-rua’, palavras da sarjeta com toque de filosofia e sim; uma poética do caos que me encantou do início ao fim da leitura.

“[…] uma vez que a vida nos toca sem gentileza jamais acordamos como éramos ontem.” - Pág. 155

Não é um livro para estômagos fracos, mas advirto: leia esse coquetel.

Até breve e
boa leitura!


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Noite das Livrarias - ações simultâneas e gratuitas no Dia do Livro, comemorado em 23 de abril

 

Programação inclui lançamentos, saraus e encontros gratuitos em vários lugares do país

Cheiro de livro Sebo, no Centro Histórico de Vitória, é uma das participantes do roteiro 

A ação nasceu da articulação de livreiros envolvidos no Mapa das Livrarias de Rua e se inspira em eventos semelhantes realizados em cidades como Buenos Aires (com a Noche de las Librerías) e Madri (com La Noche de los Libros). A proposta é destacar a diversidade da cena livreira e reforçar o papel das livrarias como espaços de encontro e programação cultural.

“Após a boa recepção do Mapa, esta Noite das Livrarias busca reforçar ainda mais o papel fundamental que as livrarias de rua têm para a vida literária”, diz Cecilia Arbolave, livreira da Banca Tatuí e da Livraria Gráfica, uma das organizadoras do projeto. Enquanto o Mapa das Livrarias de Rua foi organizado em São Paulo/SP, este novo projeto ganha escala nacional: qualquer livraria do País pode se juntar ao movimento (espaços interessados podem pedir os detalhes pelo Instagram).

Cada endereço organiza sua própria agenda, que pode incluir lançamentos, leituras, saraus e apresentações musicais. A proposta principal do projeto é convidar o público a tomar as calçadas, circular pelos bairros e apoiar de perto a cena livreira local. E pode deixar a lógica puramente comercial de lado: em vez de focar naquela tradicional enxurrada de promoções e descontos, o evento aposta toda a sua energia na experiência literária e na bibliodiversidade.

Catraia livros e leitura também participa do circuito da Noite das livrarias

Ao provocar essa grande onda de ocupação coletiva, a rede de livreiros reforça a importância desses pequenos redutos para o fomento da cultura e da arte. Quem quiser planejar a rota do passeio e escolher quais estabelecimentos visitar na sua região, basta acessar a aba “Livrarias & Eventos” no site oficial do movimento (link no fim desta postagem).

“O objetivo de cada livraria é distinto. Acreditamos que o que une todas é a vontade de fortalecer o ecossistema do livro. Queremos que o leitor entenda que a livraria é um equipamento cultural vivo, um ponto de encontro e resistência", pontua Irene de Hollanda, da Livraria Megafauna, uma das organizadoras.

Chame os amigos, escolha o seu roteiro favorito e vá viver a cidade de um jeito diferente, prestigiando os negócios independentes!