"a-maior-função-do-homem-no-mundo-é-transformar-se-em--literatura" - Reinaldo Santos Neves

domingo, 4 de janeiro de 2026

A palavra que resta [RESENHA]

 


“[…] o bom da vida é teimar,” - Pág. 18

‘A palavra que resta’ é um livro muito poético, com toda força que a poesia carrega, que nos pega pelas mãos - e a cada capítulo - nos entrega uma palavra que puxa outra e outra…

A letra e a língua como palco para a história de Raimundo e Cícero, que através de uma carta - guardada sem ser lida a mais de cinquenta anos - descortina ao leitor a história de um grande amor interrompido pelo tempo, pelos preconceitos e violências, pela miséria.

“Uma chuva fina e ligeira excitou o chão. A vista de Raimundo escapulia até o corpo do outro, de peito duro descamisado, coberto de suor e poeira. Paisagem que desperta num pássaro preso o desejo de voar. Raimundo gaiola.” - Pág. 14

Stênio Gardel, cearense de Limoeiro do Norte, cria uma narrativa lancinante e visceral ao mesmo tempo, não a toa já com o seu primeiro romance venceu o National Book Awards (2023), foi indicado ao Prêmio Jabuti (2021), teve seus direitos comprados para uma possível adaptação cinematográfica. Além de ter sido traduzido para o italiano, o inglês, holandês. A peça de teatro, sob a direção de Daniel Herz, retornou aos cartazes em 2025 no Rio de Janeiro.

“[…] tem lembrança que parece noda de caju, fica na gente nem que você não queira[…]” - Pág. 24

O livro parece uma grande carta que Raimundo escrevera para nós leitores, senti isso quando o lia. A história é um Entrelaços de memórias do personagem, uma costura do passado com presente, suas lembranças escritas e remendadas cheias de cicatrizes que o autor faz questão de mostrar.

“[…] a quietude premonitória do corpo do rio[…] E o lençol d’água vestiu-se da tranquilidade marmórea dos túmulos.” - Pág. 55

O artefato em minhas mãos é um livro de sotaque, que me lembrou Salomão Larêdo, Monique Malcher, Dia Nobre, escritas que trazem minha mãe comigo em palavras, que me faz caminhar pelas páginas de um tempo reminiscente, que fisgam da herança linguística familiar cada sílaba esquecida.

Stênio põe no papel e em sua prosa poética com excelência e expõe o tutano do osso; a oralidade na sua mais simples e pura significância. letra minúscula onde ‘não deve’, pontuação no lugar ‘errado’, as palavras de Gardel me parecem língua atropelando vis e desnecessários academicismos, eu amo!

“[…] o fim certo é que é bom, é o fim certo que empurra a gente, não fosse a certeza do fim, a gente ia viver igual todo santo dia?” - Pág. 130


‘sátiros solitários abandonados por Eros no cinema’ [RESENHA]

 


“Veados nada mais são do que abstrações de homens.” - Pág. 23

A cisma do sátiro solitário, do guei de não poder estar com outro em público, e principalmente - isso retratos de uma época, 1990 - a feminilidade como sendo algo ruim e a binaridade muito marcada nos textos de Luís Capucho.

“ No mofo do cinema eu me iludo
No bafo do cinema eu me afundo
[…] De dez às dez
Abre as portas para os fiéis
Seja uma igreja
Seja um cinema
O Orly me beija[…]” - Pág. 30

O falocentrismo como centro de cada conto, narrativas movidas pela pornografia e pelo homoerotismo, formas rasas de se pensar a comunidade LGBTQIAPN+ hoje em dia, mas que me trouxe muitas reflexões sendo a principal delas a relação de homens cis gays com o seus corpos - sempre com foco no falo.

“Quando via a sua masculinidade se trair numa fisionomia, na entonação de uma frase, eu via mais buracos por onde pudesse escapar, no entanto, eu continuava a nadar no seu pequeno aquário.” - Pág. 40

Algumas coisas me incomodaram na leitura, uma delas foi a repetição dos textos que endeusam em sua maioria o ‘falo’ - tudo gira em torno do pau, o que torna cada conto superficial demais pra mim - ainda falando de incômodos, a forma como é tocado ‘nos’ travestis me fez pensar bastante na exclusão e distanciamento da letra T das pessoas trans na sigla da comunidade por parte dos gays e as questões de invisibilização e disputas dentro do próprio ecosistema que deveria se proteger para sobreviver e não o contrário.

“[…] os que frequentávamos o Orly, éramos especialmente um bando de eliminados. Adorávamos o sexo heterossexual que vimos na tela, nos sujeitávamos à infecções[…] somente o gueto do Orly nos era permitido[…]” - Pág. 92

São contos curtos e autobiográficos, pra quem gosta de textos eróticos e homoafetivos, com uma pitada do ‘nem tão bom’ e velho sentimento de dedo no cu e gritaria. Um ponto positivo pra mim são as ilustrações de César Lobo, com modelos nus masculinos, em cada início de capítulo que ditam o tom do que virá nas próximas páginas.

Apesar das críticas eu gostei do livro, curti a leitura por ser bastante fluida e a escrita de Capucho ser muito direta, vou até reler algum dia Cinema Orly.

“No Orly[…] todos preferíamos ser apenas uma imagem, sem alma.” - Pág. 63