A cisma do sátiro solitário, do guei de não poder estar com outro em público, e principalmente - isso retratos de uma época, 1990 - a feminilidade como sendo algo ruim e a binaridade muito marcada nos textos de Luís Capucho.
“ No mofo do cinema eu me iludo
No bafo do cinema eu me afundo
[…] De dez às dez
Abre as portas para os fiéis
Seja uma igreja
Seja um cinema
O Orly me beija[…]” - Pág. 30
O falocentrismo como centro de cada conto, narrativas movidas pela pornografia e pelo homoerotismo, formas rasas de se pensar a comunidade LGBTQIAPN+ hoje em dia, mas que me trouxe muitas reflexões sendo a principal delas a relação de homens cis gays com o seus corpos - sempre com foco no falo.
“Quando via a sua masculinidade se trair numa fisionomia, na entonação de uma frase, eu via mais buracos por onde pudesse escapar, no entanto, eu continuava a nadar no seu pequeno aquário.” - Pág. 40
Algumas coisas me incomodaram na leitura, uma delas foi a repetição dos textos que endeusam em sua maioria o ‘falo’ - tudo gira em torno do pau, o que torna cada conto superficial demais pra mim - ainda falando de incômodos, a forma como é tocado ‘nos’ travestis me fez pensar bastante na exclusão e distanciamento da letra T das pessoas trans na sigla da comunidade por parte dos gays e as questões de invisibilização e disputas dentro do próprio ecosistema que deveria se proteger para sobreviver e não o contrário.
“[…] os que frequentávamos o Orly, éramos especialmente um bando de eliminados. Adorávamos o sexo heterossexual que vimos na tela, nos sujeitávamos à infecções[…] somente o gueto do Orly nos era permitido[…]” - Pág. 92
São contos curtos e autobiográficos, pra quem gosta de textos eróticos e homoafetivos, com uma pitada do ‘nem tão bom’ e velho sentimento de dedo no cu e gritaria. Um ponto positivo pra mim são as ilustrações de César Lobo, com modelos nus masculinos, em cada início de capítulo que ditam o tom do que virá nas próximas páginas.
Apesar das críticas eu gostei do livro, curti a leitura por ser bastante fluida e a escrita de Capucho ser muito direta, vou até reler algum dia Cinema Orly.
“No Orly[…] todos preferíamos ser apenas uma imagem, sem alma.” - Pág. 63
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