‘A palavra que resta’ é um livro muito poético, com toda força que a poesia carrega, que nos pega pelas mãos - e a cada capítulo - nos entrega uma palavra que puxa outra e outra…
A letra e a língua como palco para a história de Raimundo e Cícero, que através de uma carta - guardada sem ser lida a mais de cinquenta anos - descortina ao leitor a história de um grande amor interrompido pelo tempo, pelos preconceitos e violências, pela miséria.
“Uma chuva fina e ligeira excitou o chão. A vista de Raimundo escapulia até o corpo do outro, de peito duro descamisado, coberto de suor e poeira. Paisagem que desperta num pássaro preso o desejo de voar. Raimundo gaiola.” - Pág. 14
Stênio Gardel, cearense de Limoeiro do Norte, cria uma narrativa lancinante e visceral ao mesmo tempo, não a toa já com o seu primeiro romance venceu o National Book Awards (2023), foi indicado ao Prêmio Jabuti (2021), teve seus direitos comprados para uma possível adaptação cinematográfica. Além de ter sido traduzido para o italiano, o inglês, holandês. A peça de teatro, sob a direção de Daniel Herz, retornou aos cartazes em 2025 no Rio de Janeiro.
“[…] tem lembrança que parece noda de caju, fica na gente nem que você não queira[…]” - Pág. 24
O livro parece uma grande carta que Raimundo escrevera para nós leitores, senti isso quando o lia. A história é um Entrelaços de memórias do personagem, uma costura do passado com presente, suas lembranças escritas e remendadas cheias de cicatrizes que o autor faz questão de mostrar.
“[…] a quietude premonitória do corpo do rio[…] E o lençol d’água vestiu-se da tranquilidade marmórea dos túmulos.” - Pág. 55
O artefato em minhas mãos é um livro de sotaque, que me lembrou Salomão Larêdo, Monique Malcher, Dia Nobre, escritas que trazem minha mãe comigo em palavras, que me faz caminhar pelas páginas de um tempo reminiscente, que fisgam da herança linguística familiar cada sílaba esquecida.
Stênio põe no papel e em sua prosa poética com excelência e expõe o tutano do osso; a oralidade na sua mais simples e pura significância. letra minúscula onde ‘não deve’, pontuação no lugar ‘errado’, as palavras de Gardel me parecem língua atropelando vis e desnecessários academicismos, eu amo!
“[…] o fim certo é que é bom, é o fim certo que empurra a gente, não fosse a certeza do fim, a gente ia viver igual todo santo dia?” - Pág. 130
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