"a-maior-função-do-homem-no-mundo-é-transformar-se-em--literatura" - Reinaldo Santos Neves

sábado, 14 de janeiro de 2023

Entrevistando Contemporâneos & Independentes – Advanir Rosa




Como a literatura entrou em sua vida?

A: Pelas histórias contadas por minha mãe. Quando era criança, bem novinha, por volta dos cinco anos de idade, morávamos num lugar sem energia elétrica. A iluminação era a luz do luar e dentro de casa a luz da lamparina e do fogão à lenha. E era na cozinha, perto desse fogão que minha mãe, toda noite reunia as crianças da vizinhança para contar histórias e causos, especialmente de terror. E eu ficava fascinada. Esperava por esse momento ansiosa. Depois ao entrar na escola fui apresentada aos livros, à literatura. Descobri nos livros uma fonte inesgotável de histórias e desenvolvi uma verdadeira paixão por leitura.



Qual foi o papel da leitura para a construção do seu eu autor?

A: A leitura teve papel fundamental para me constituir autora. Cada livro lido, cada autor conhecido, cada gênero, cada mundo me apresentado, a diversidade de personagens, temas e linguagens diferenciadas, sentimentos diversos provocados pelos inúmeros livros lidos, foi moldando a escritora que hoje sou. Ressaltando que a cada livro lido, sigo me constituindo autora, porque aprendemos sempre e sigo lendo com voracidade. Sem leitura não há autor. É principalmente ela que nos constitui.



Consegue viver de literatura?

A: Não. Vivo da minha profissão na área de Educação. Sou Professora e Pedagoga, respectivamente, em Vitória e Vila Velha. Mas venho trabalhando com a venda dos meus livros de Literatura Infantil publicados numa visão empreendedora. E assim seguirei fazendo com todos os meus livros publicados, já que me organizei para seguir publicando pelo menos um livro por ano. Quem sabe um dia a gente tenha um País que lê e assim possamos viver de literatura? Enquanto isso sigo, colaborando para a formação do hábito da leitura, logo de leitores.



Qual a maior dificuldade que encontra para chegar ao público leitor?

A: A divulgação, porque enquanto escritora independente, tenho que fazer todo o trabalho sozinha, além de escrever, que é a parte fácil do processo, tenho que fazer todo o processo de marketing dos meus livros, formar uma ampla rede de divulgação, o que não é fácil. Penso que cada Município por meio de sua Secretaria de Cultura, poderia apoiar os escritores independentes, mapeando-os, promovendo suas obras e até adquirindo as mesmas. Todos ganhariam com isso, principalmente os munícipes que teriam nas Bibliotecas do município, inclusive as escolares, uma maior diversidade de livros e de escritores a sua disposição.



Quais são suas referências literárias?

A: São muitas, mas vou falar daquelas que me marcaram mais. Ainda da infância, a escritora brasileira Maria José Dupré. O livro infanto-juvenil “A Montanha Encantada” é o livro que me causou tanto encantamento, que contribuiu muito para que eu me tornasse uma apaixonada por livros. No início da adolescência, Adelaide Carraro, com “O Estudante” livro que me impactou de uma maneira que nenhum outro havia feito. E daí por diante tive como referências Edgar Allan Poe, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarisse Lispector, Hemingway, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Manoel de Barros, Álvarez de Azevedo, Carolina Maria de Jesus, Olavo Bilac, Conceição Evaristo, Adélia Prado, Aluísio Azevedo, Cora Coralina, Manuel Bandeira.



Lida bem com as críticas?

A: Sim. Parto do princípio que estamos sempre aprendendo, então as críticas também podem ser instrumento de aprendizagem, de crescimento. Tento olhar para elas com um olhar analítico, para enxergar o que posso aprender por meio delas. E quando não há o que aprender, simplesmente as descarto.



Está trabalhando em algum livro no momento?

A: Sim. Estou sempre trabalhando num projeto de um livro, às vezes até em vários concomitantemente. No momento estou desenvolvendo três projetos: um livro de contos, outro de literatura juvenil, e claro um de literatura infantil. Todos me empolgando muito!



O que seria de sua vida sem as letras?

A: Uma pasmaceira! Uma vida em preto e branco, já que o colorido da vida é justamente as letras que me trazem. Escrevo e leio desde pequena. E não consigo imaginar minha vida sem fazer isso.



Dê uma (ou mais) dica(s) para quem quer ser escritor:

A: A dica mais importante é leia, leia muito. Leia de tudo. Leia o que gosta, o que não gosta. Leia para se informar, para aprender, para o lazer. Leia enquanto autor. Você pode fazer um calendário anual de leitura, discriminando os livros que irá ler em cada mês do ano. Só tendo muita bagagem de leituras variadas, passamos a ter bagagem para escrever. Organize sua rotina de escritor: crie sua toca, nas palavras de Manoel de Barros, com tudo que você precisa à mão. Ou seja, seu cantinho para escrever. Organize um calendário de escrita com os horários diários que você consegue escrever.







Advanir Rosa escritora, poetisa, palestrante, contadora e mediadora de histórias, ativista cultural, pedagoga e professora alfabetizadora. Acadêmica na Academia de Letras de Vila Velha - ALVV e na Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores - ACLAPTCTC. Escreve em variados gêneros (apesar da preferência por poemas e literatura infantil). Integra o grupo Chão de Letras da Biblioteca Municipal de Vitória, pelo Projeto Viagem pela Literatura. Promove eventos literários tais como Clube do Livro, Saraus, Organização e publicações de Antologias literárias. É fascinada pela Literatura e acredita em seu poder, no poder das Artes, da Contação de Histórias, da Educação, enfim, da Cultura na transformação da realidade. Publicou o livro de literatura infantil: “A Mudança”, Editora Jorden, 2021. E também de Literatura infantil a obra: “Bruxas diversas, Diversas bruxas”, pela mesma Editora, 2022.


 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Literatura produzida no Espírito Santo - A Grande Reportagem

vídeo retirado no canal do Youtube da Assembleia Legislativa do ES




Qual o futuro desse mercado? Que literatura é essa a nossa? Existe uma literatura “capixaba”? O que faz ela ser forte?

A Grande Reportagem traz uma reflexão sobre a literatura produzida aqui no Espírito Santo, os desafios e os pontos favoráveis ao segmento.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Automutilação & úlceras de um coração sangrando: a poesia de Ingrid Carrafa (RESENHA)

 


“Fazer literatura é uma gozada solitária[...]” - Pág. 13


Entre o céu e o inferno há a poesia-gozo de Ingrid Carrafa, com seus versos crus e ensanguentados, apodrecendo num mundo caótico.


“Você nasceu com a marca das libertas.
E o seu castigo é a solidão de várias camas.” - Pág. 22


Seu livro é uma oferenda profana, com sua rima inumana, aos leitores e leitoras sedentas de saciar sua fome de uma poesia nua e crua.


“meu coração está sendo comido vivo pelas moscas varejeiras na parede[...]” - Pág. 24


A maioria de seus textos contam uma história, nem sempre alegre, alguns temas que permeiam poética de Ingrid são: a solidão, depressão, erotismo, morte, loucura.


“Ontem à noite abrir as portas do meu coração e encontrei
uma cidade fantasma[...]” - Pág. 38


Ela conta sobre corpos frios, secos da rotina, no mundo vazio de troca de sentimentos. Onde capitalismo manda os outros pré-conceitos comandam.


“Em mim, uma mulher está se afogando.
Percebo seu riso triste resignado
quando ela me olha e diz:
- O amor, Ingrid,
Tem uma graça sulfúrica.” - Pág. 61


Suas personagens principais: mulheres desabrigados de amor e homens acostumados aos privilégios de nascerem homens.


“Minhas vísceras estavam silenciosas
esperando o próximo copo de cerveja.” - Pág. 77


Em um poema sem título, um poema-manifesto, a autora dá aos ‘humanos’ uma nova opção que não o inferno e os rios de lava. Novamente uma afronta os puritanos e ao sagrado destino final de todos. No fim: a morte.


“A sina de carregar dentro do peito
a chaga de estar viva, porém inabitada.” - Pág. 87


Ingrid trabalha como ninguém tanto eu lírico masculino quanto feminino em suas prosas poéticas fortes, potentes e bem construídas.


“Passo pela Av. Lindenberg,
Estou voltando do trabalho.
Faz frio e está tarde.
Algumas prostitutas e travestis fazem ponto;
Hoje irão aquecer algumas solidões.” - Pág. 101


Amores vêm e vão, o que sobra na prosa poética de Carrafa é um pesado sentimento de ressaca, ainda resiste um coração cheirando a cana barata e cansado destas passagens dos que juraram ficar.


“[...]quer me foder vida?
Me beija antes!” - Pág. 115


Uma frase que reflete um pouco do que a escritora versa, sem floreios nem enfeites desnecessárias, simplesmente para informar que as coisas as vezes são como são. Isso me faz gostar cada vez mais da poesia de ‘E quando borboletas carnívoras dançam no estômago’.


“Às vezes as coisas são apenas o que parecem ser,
sem nada demais.” - Pág. 124


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

‘Post It de carne & putrefação’ (RESENHA) #SêPoesia


Mais uma escritora de poesia do agora, com seus textos de urgência, em carne viva & osso raspado.

“A rua inteira é um rio de medo,
mas medo caudaloso e perene
se torna aço de cortar as mãos
do carrasco.” - Pág. 16

Coradello com seus poemas livres, com e sem título, algumas prosas poéticas, versa sobre o cotidiano: o amor, as revoltas, os sentimentos.

“Naufrágios que dançam tornam-se submarinos.” - Pág. 26

Uma mulher do seu tempo com as dores e o terror do século XXI. Uma feminista com versos potentes e necessários.

Seu corpo-poesia carimba duras críticas ao machismo, ao capitalismo e a sociedade moderna.

“É uma memória apodrecida o amor.” - Pág. 58

É um livro de rápida leitura, com poemas ora curtos ora longos, e um verso tão pesado que ocupa - em uma única linha - a folha toda, mas que me deliciei em apenas uma sentada à meia-noite antes de deitar para dormir.

Essa é, com certeza, uma ótima leitura de cabeceira.






📚💙 Eu e a Thay do @galeoteca nos juntamos para falar sobre poetas massa e suas obras riquíssimas ao longo de 2022. Os escolhidos desse último mês do ano foram 'Post its de carne & putrefação' de Mara Coradello e 'Azul instantâneo' do Pedro Vale


Bora Sê Poesia com a gente?!


A #SêPoesia é para mostrar poetas do Brasil, você tem alguma indicação? Diz aí.


Gostou de conhecer a Mara? Já conhecia? Me conta também.


✨ Depois daqui vai no IG da @galeoteca e confira a poeta indicada: você vai adorar!


 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Entrevistando Contemporâneos & Independentes – Luciano Máximo

 




Como a literatura entrou em sua vida?

L: Embora eu não tenha nascido em uma família de leitores assíduos, já nasci com um encantamento natural pelos livros. Quando encontrei, por acaso, um livro antigo, que minha mãe utilizou em sua época de escola, me desafiei a lê-lo. O livro é do autor californiano Jack London e tem como título “Chamado Selvagem”. A experiência de leitura foi maravilhosa, sendo minha porta de entrada pra literatura.



Qual foi o papel da leitura para a construção do seu eu autor?

L: Meu primeiro contato com os suspenses da inglesa Agatha Christie foi um divisor de águas para mim. Logo de cara percebi que um dia queria escrever algo parecido. No entanto, só na faculdade de Letras e Literatura, ao ter contato com a leitura de autores brasileiros, e tendo-os com referência, que me senti com maior domínio da escrita e resolvi arriscar meus primeiros textos longos. E não parei mais.



Consegue viver de literatura?

L: Seria maravilhoso, mas infelizmente ainda não alcancei esse feito. Seguirei escrevendo. Se um dia eu conseguir pagar minhas contas com a escrita, será por consequência de um constante empenho e aperfeiçoamento.



Qual a maior dificuldade que encontra para chegar ao público leitor?

L: Nós, autores independentes, somos nossos principais divulgadores, e, até conseguirmos construir uma rede social consistente para divulgarmos nossos trabalhos, demanda muito empenho e tempo. Acredito que quando o poder público investir mais nos novos escritores, adquirindo suas obras para as escolas e bibliotecas, ajudará muito na difusão dos mesmos. Enquanto isso, sigamos na luta, trabalhando para que tenha um público cada vez maior nos eventos literários, dos quais participamos.



Quais são suas referências literárias?

L: No início da minha caminhada como escritor eu lia muito os clássicos. Hoje me volto para os contemporâneos como, por exemplo, Raphael Montes, Patrícia Melo e Marçal Aquino. Só que sempre tem um romance da Agatha Christie na minha cabeceira para me inspirar.



Lida bem com as críticas?

L: Não é tão fácil recebe-las, por mais bem intencionadas que sejam. Porém, hoje em dia, depois de ver vários leitores se tornando fãs de minhas histórias, as críticas negativas já não me afetam. Muito pelo contrário. Fico atento a elas, pois podem servir para o meu crescimento.



Está trabalhando em algum livro no momento?

L: Sempre estou. Já não escrevo com a mesma voracidade de anos atrás, mas adoro ter uma trama na cabeça, e escrevê-la, aos poucos, em meu tempo livre.



O que seria de sua vida sem as letras?

L: Quando não estou curtindo minha família, escrever é o que mais gosto de fazer. Então, acho que meu cotidiano seria bem chato se eu não tivesse me descoberto escritor. É claro que gosto de fazer outras coisas, só que a magia das letras é algo insubstituível.



Dê uma (ou mais) dica(s) para quem quer ser escritor:

L: A gente só vai saber se leva jeito, ao deixar de lado a insegurança e começar a escrever sem medo de ser feliz. Às vezes, a pressa de publicar também atrapalha. Só jogue seu texto para o mundo quando ele estiver bem trabalhado; principalmente bem revisado; não o divulgue de qualquer maneira. Penso também ser fundamental que a pessoa estude sua língua, afinal, será sua ferramenta de trabalho. Mas eu acho que o mais importante de tudo, é que seja um bom leitor, pois não acredito em bom escritor que não lê. São as muitas leituras que nos dão bagagem e condições de escrever uma boa ficção.









Luciano Máximo é natural do Rio de Janeiro – RJ, mora em Linhares desde 1992. Cursou a faculdade de Letras e Literatura pela Universidade da Grande Dourados – MS; Pós Graduado em Educação de Jovens e Adultos. Atuou por anos como Professor de Língua Portuguesa e Literatura; é membro correspondente da Academia Espirito-santense de Letras, da Academia Cariaciquense de Letras (cadeira 18) e da Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores (cadeira 63), e integra o Conselho de Cultura Municipal de Linhares. Também atua como músico de MPB, tendo se apresentado em vários eventos literários pelo Estado do Espírito Santo. É revisor de textos e responsável pela edição da revista mensal digital Literatura ao Máximo. Iniciou sua trajetória literária escrevendo crônicas em um blog, e publicou cinco livros.


terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Lançamento de livros da Academia Espírito-Santense de Letras

 

Livros lançados na noite de ontem (19/12/2022)

A Secretaria Municipal de Cultura (Semc) de Vitória e a Academia Espírito-Santense de Letras (AEL), lançou, na segunda-feira (19), quatro livros e um periódico. O evento ocorreu às 19 horas, na sede da Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim,que fica no Casarão Cerqueira Lima, localizado no Centro Histórico de Vitória.

com Francisco Aurélio Ribeiro, organizador do livro 
'Prisioneira da liberdade - Jeanne Bilich: vida e obra'

com Renata Bomfim, escritora que fez o estudo crítico do livro 
'Prisioneira da liberdade - Jeanne Bilich: vida e obra'

De acordo com a bibliotecária Elizete Caser o objetivo é o fomento à literatura entre o público de todas as idades e a divulgação da produção literária do Espírito Santo. "Ações como essa promovem o acesso democrático à leitura, à literatura e à cultura capixaba. Distribuiremos essas obras em escolas públicas, bibliotecas e também a todos àqueles que manifestarem interesse", declarou Elizete.



"A Academia, que tem o seu lema 'Semper Ascendere', com o convênio celebrado junto à Cultura de Vitória pôde dar continuidade a seu projeto "Incentivo à Cultura Literária", sacralizando, assim, suas finalidades: divulgar a leitura e incentivar a criação de bibliotecas por meio da reedição de publicação literária periódica, para oferecer a um público diverso oportunidades de leituras variadas e estimulo à produção literária, visando o desenvolvimento literário e cultural do Espírito Santo", afirmou a presidente da AEL, Ester Abreu Vieira de Oliveira.

"A AEL agradece aos escritores que atenderam o seu convite e enviaram seus textos, bem como a todos os que se envolveram para que esse projeto se tornasse realidade", completou a presidente.


com a escritora Janis H. Camargo e Eduardo Matos

com Auro Malaquias dos Santos, autor do livro 
'Manoel Jorge Rodrigues: o precoce poeta espírito-santense...'



As publicações estarão disponíveis à população já na segunda-feira (19). Confira os lançamentos:


•"Bairros de Vitória" - Coleção Escritos de Vitória, 37 - organização, Adilson Vilaça;
•"Memórias Capixabas" - Coleção José Costa, 35 - organização, Fernando Achiamé;
•"Manoel Jorge Rodrigues: o precoce poeta espírito-santense..." - Coleção José Costa, 34 - autor, Auro Malaquias;
•"Prisioneira da liberdade - Jeanne Bilich: vida e obra" - Coleção Roberto Almada, 34 - organização, Francisco Aurélio Ribeiro - notícias biográficas, Álvaro J. Silva e estudo crítico, Renata Bomfim;
•"Revista da Academia Espírito-Santense de Letras, edição comemorativa aos 102 anos da AEL, v. 2" - organização, Francisco Aurelio Ribeiro.

O lançamento das obras contou ainda com a participação da Orquestra de Cordas da Fafi e com a posse da diretoria da AEL.

com o clube de leitura Leia Capixabas (da esquerda para a direita):
Elaine Lordello, Henrique Pariz, Andréa Mascarenhas, Marcela Neves, Anaximandro Amorim

títulos lançados no dia 19 de Dezembro








Fonte: https://www.vitoria.es.gov.br/noticias/cultura-e-academia-espirito-santense-de-letras-lancam-obras-literarias-46602





quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Alguns versos de Caio Fernando Abreu

 


“Nunca pertenci àquele tipo histérico de escritor que rasga e joga fora. Ao contrário, guardo sempre várias versões de um texto, da frase em guardanapo de bar à impressão no computador”, confessou Caio Fernando Abreu na coletânea que ele próprio coligiu, antes de deixar órfãos seus leitores.


“Estou preparando uma surpresa literária para você. Prepare-se. Não posso adiantar muito porque tira a graça.” Caio F. em carta a Gerd Hilger


‘Poesias nunca publicadas’ é uma reunião de 116 poemas inéditos do autor, dos anos 1960 aos 1990, organizada pelas professoras e pesquisadoras Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima.


Leitor atento de poesia, além de amigo de poetas como Hilda Hilst, Ana Cristina César e Mario Quintana, Caio F. elaborava seus versos no cotidiano, desviando o olhar para laços afetivos intensos. Seus poemas são repletos de elementos conhecidos de suas narrativas: o mofo das relações afetivas, a solidão de uma poltrona verde, a beleza singela das flores, a fumaça distraída de um cigarro, declarações de amor desesperadas e conversas insólitas. 


Além de ser um dos escritores mais importantes de sua geração e jornalista em vários veículos na impressa nacional Caio também é poeta e eu posso provar, seguem neste carrossel algumas poesias deste livro maravilhoso.

Espero que goste de uma faceta de Caio que eu sou apaixonado,

Boa leitura!






sábado, 3 de dezembro de 2022

Faz escuro mas eu canto (RESENHA) #SêPoesia

 

“El pulso del país se recobró como si despertara de una letárgica tristeza.” - Pablo Neruda, na introdução do livro

“Traduzido para mais de trinta idiomas, ‘faz escuro mas eu canto’ configura-se como um manifesto aberto de amor e crença na humanidade.” - trecho da orelha

O poeta não fala de um tempo ‘agora’. Ele versa a esperança de uma nova aurora que se encaminha pós-noite turbulenta.


“Cuidado, companheiro, esconde a rosa,
espanta a mariposa colorida,
é perigosa essa canção de amor.” - Pág. 24


Seus poemas leves vem sempre carregados de uma lembrança vivida, de um peso que não cabe em uma estrofe.


“Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.” - Pág. 33


‘Faz escuro mas eu canto’ é um livro exilado, filho de uma ditadura. Mesmo com a pátria em seu peito o poeta encontra-se censurado da liberdade, em cada texto Thiago rompe a fronteira encontrando outros corações revolucionários.


“Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã[...]” - Pág. 82




📚💙 Eu e a Thay do @galeoteca nos juntamos para falar sobre poetas massa e suas obras riquíssimas ao longo de 2022. Os escolhidos desse último mês do ano foram 'Faz escuro mas eu canto' de Thiago de Mello e 'Rotina dos Ossos' da Fabíola Mazzini


Bora Sê Poesia com a gente?!

A #SêPoesia é para mostrar poetas do Brasil, você tem alguma indicação? Diz aí.

Gostou de conhecer o Thiago? Já conhecia? Me conta também.


domingo, 20 de novembro de 2022

Território inominado (RESENHA)

Território inominado (Editora Cousa, 2018)



“Resisto a um corpo que se escreve: da melodia á medula, o hábito censura a óbvia ossatura.” - Pág. 37

Uma linguagem um tanto quanto Poética, mas que há também no texto de Fernanda duras críticas sociais ao capitalismo, sobretudo a (re)evolução mercadológica-industrial.

Um dos objeto-sujeito do romance é a própria palavra onde a autora a subverte, colocando-a em variadas situações quase que palpáveis.

“Procuro ser linear, como um rio que se estira entre a nascente e a foz. Por isso escrevo. Mas me perco na narrativa, o rio é sempre curvo.” - Pág. 21

Talvez seja isso - um indício - de como será a narrativa de ‘Território inominado’: uma tentativa.
Para não dizer que não há diálogo, e que se trata de uma espécie de monólogo, há no livro algumas falas no entremeio da narrativa de Fernanda.
Foi o que me deixou confuso na leitura de início, uma pequena ressalva, a falta de linearidade que não me deixa conectar com o que está sendo contado.

“Como são frágeis as fronteiras entre ficção e factualidade!” - Pág. 31

É uma ficção com toques surrealistas, uma realidade paralela, criação de cenas irreais.
Há no livro referências à Mário de Andrade e ‘Macunaíma’, um dos grandes representantes da vanguarda modernista no Brasil.

“O texto é um tecido e minhas mãos poderiam ser instrumento de costurar uma margem possível.” - Pág. 33

Uma tentativa de desbravar as camadas das cidades e das palavras através da entrega total; um deixar boiar corpo-texto num mar pouco explorado.

O objetivo da autora e o que torna ‘Território inominado’ um livro tão desafiador, apesar de curto - um romance de menos de 100 páginas - bem complexo.

“E se o seu mistério não for mais que uma composição de fragmentos, realidade inventada não para que se decifre, não para que se veja, mas para que se apanhe no ato?
Sim, há coisas que devem ser vistas e outras que não.” - Pág. 64

Há uma crítica pontual a arte como produto, a literatura com mercadoria, e também alguns apontamentos do quão difícil é sobreviver como escritora.
Mais uma crítica ao capitalismo, incisiva e certeira, uma forma de refletir sobre o distanciar -ou aproximar- a arte, o artista, do empreendedor.

“[...]ir pode ser também um ficar, permanecer.” - Pág. 77

Por fim as próprias palavras se domam, ou largam seus cabrestos, e ocupam seu lugar nas ‘coisas’ antes inominadas. Fernanda traça uma cartografia da descoberta, sem fronteiras, nos deslocando da translúcida camada entre o real e o imaginário.

 

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Entrevistando Contemporâneos & Independentes – Marco Kbral

 




Como a literatura entrou em sua vida?

M: De maneira natural, através dos causos e “historietas” contadas por meu pai. Foi ele o responsável por introduzir o conhecimento e sofisticação que, não somente, a Literatura, mas outras artes, podem oferecer para o desenvolvimento humano. Lembro-me dele recitando a Salve Rainha pra mim todas as noites, além de me contar História, como disciplina, mas em forma de estórias. Assim nascia, acredito, o Marco Kbral: escritor... o historiador, com certeza.



Qual foi o papel da leitura para a construção do seu eu autor?

M: Fundamental para a criação do escritor. Desde menino sempre li muito. Mesmo quando não dominava a leitura de maneira eficaz, os livros eram meus companheiros. Já sou um jovem senhor, filho de um tempo, onde livros e brinquedos educativos eram necessários, de acordo com muitos pais, para a formação de um futuro cidadão consciente.



Consegue viver de literatura?

M: Viver de Literatura, não! Ela é rica por si só, por isso parece não enriquecer monetariamente. Mas vivo com a Literatura, e de sua presença... sem ela: jamais!



Qual a maior dificuldade que encontra para chegar ao público leitor?

M: O problema da má divulgação e de um monopólio existente e favorecedor, infelizmente, a pequenos nichos de escritores, situação muitas vezes acoplada, a politicagem... também, a forma como o escritor escreve... muitas vezes eu mesmo não me compreendo, quem dirá o leitor, os nichos, o povo... Deus!



Quais são suas referências literárias?

M: Deixemos que o leitor as descubra. Sou um leque de autores: uma multidão habita em mim indiscriminadamente.



Lida bem com as críticas?

M: Crítica é algo maravilhoso: um processo catabólico. Desconstrução deve ser entendida como chave de sabedoria. De onde vem, sabemos se é maldosa, ou não. Pra quem é bom entendedor, meia palavra basta.



Está trabalhando em algum livro no momento?

M: Sim, dois livros... mas sem spoiler.



O que seria de sua vida sem as letras?

M: A morte do Kbral.



Dê uma (ou mais) dica(s) para quem quer ser escritor:

M: Leia muito para ser sinestésico. Escrever requer um mar de sensações dadas ao ser humano apenas pelo exercício da leitura. A leitura, se assim podemos definir, é a mãe de todas as artes e ciência: se faz Matemática, culinária, pintura... sem se ler?









Marco Kbral (1981) é um professor, historiador, maquiador, cantor e escritor brasileiro. Dentre seus trabalhos destacamos obras técnicas e literárias. É imortal da Academia de Letras de Vila Velha, onde ocupa cadeira 22, cujo patrono é José de Anchieta. São elas: O Rio de Janeiro ante seu novo rei: os impactos da Restauração Portuguesa sobre a cidade do Rio de Janeiro (1640-1680), trabalho premiado e publicado em 2001 pela Editora da Universidade Gama Filho, Sete Poemas de Amor (2009), Etérea (2015), Amorodé (2017), Maria Mulher (2018), Passo de Dois (2019), Polifonias Hiperbólicas (2020) e Ressurreição das Caveiras seguido de Piel (2020). É maquiador formado pelo Instituto Catharine Hill, São Paulo (2015), sendo instrutor e, também, empresário da área de beleza.