"a-maior-função-do-homem-no-mundo-é-transformar-se-em--literatura" - Reinaldo Santos Neves

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Entrevistando Contemporâneos & Independentes – Messias Botnaro



Como a literatura entrou em sua vida?

M: Primeiro, você não está falando a verdade quando pergunta como a literatura entrou em minha vida. Isso não existe, é uma fake news da sua parte. Tenho certeza de que você nunca leu Tuítes póstumos de um herói nacional, Minha Luta ou Escremorrências. Se tivesse lido, saberia que só foi possível servir à pátria como escritor porque eu morri. Portanto, a literatura entrou em minha morte, não em minha vida. Agradeço mais uma vez ao COVID-19 por me matar e propiciar a escremorrência. Mors janua vitae, Vita janua mortis. A morte é a porta da vida, a vida é a porta da morte.

Muitos morrem tarde demais, e alguns morrem cedo demais. Eu morri no tempo certo! Todos dão grande peso ao fato de morrer porque ainda não compreenderam a morte como uma festa. Os homens ainda não aprenderam como consagrar as mais bonitas festas. Eu mostrarei a morte consumadora, que se torna um aguilhão e uma promessa para os vivos.



Qual foi o papel da leitura para a construção do seu eu autor?

M: Desculpa, eu não tenho tempo de ler livro. Já tem anos que eu não leio um livro. Chefe, eu estou confessando, não tenho como abrir um livro. Não dá nem para ver a orelha do livro mais... Cultura pessoal não é você ler um monte de livros. Cultura literária não é ler muitas obras de literatura.

Deixa lá Regina Dalcastagnè dizer que não há espaço para heróis na narrativa contemporânea, nem para gestos magnânimos ou palavras eloquentes. Mentira. Eu, indivíduo poderoso, que tudo sabe e comanda, provo o contrário. Com visão e conhecimentos superiores, meu eu autor é o dono absoluto do enredo. Senhor do enredo, eu apresento a minha verdade dos fatos, e a ninguém cabe ficar indagando o que deixou de ser dito. A gente tem tudo para ser uma grande nação. O que falta é que alguns poucos não nos atrapalhem.



Consegue viver de literatura?

M: Pessoal deve saber como que é composto a ideologia dos sindicatos de escritores pelo Brasil quase todo. É um pessoal de esquerda radical que quer viver de literatura. Não tenho obrigação NENHUMA para com toda essa maldita classe de vampiros que sempre viveu de dinheiro público. Esses escritores mimizentos, como aliás todos os esquerdistas, acreditam que tem mais direitos do que o povo brasileiro que trabalha e paga impostos. O que um comunista chama de moral e ética é o que a humanidade normal chama de perversão psicopática. Não há saco que aguente essas embonecadas metidas a intelequituar.

Essa desgraça dessa Lei Rouanet começou muito bem intencionada, depois virou aquela festa que todo mundo sabe, cooptando a classe artística, pessoas famosas para apoiar o governo. Quantas vezes vocês viram figurões, não vou falar o nome, não, escritores defendendo “Lula livre”, “viva Che Guevara”, o “socialismo é o que interessa” em troca da Lei Rouanet.

Respeitando a aplicabilidade do dinheiro público, venho sendo covardemente atacado por parte da imprensa, por quem quer de volta a mamata. Os números da economia são fantásticos, levando-se em conta o resto do mundo. Mas a mamata acabou. Agora quero ver esses artistas vagabundos tendo de arrumar um trabalho de verdade para sobreviver.



Qual a maior dificuldade que encontra para chegar ao público leitor?

M: O público leitor tinha uma leitura totalmente distorcida do nosso país. A realidade é que o Brasil é um livro de romance, mas haviam colocado a capa de terror e vendido para os comunistas. Essa narrativa é falsa porque nós construímos uma democracia consolidada, empenhamos esforços gigantescos com os direitos humanos, defendemos a população indígena, trabalhamos para diminuir o desmatamento ilegal da Amazônia e, agora, o mundo está começando a conhecer nossa verdadeira história. A capa de terror é desenhada por grupos que torcem contra mim, contra a abertura da economia e que não aceitam a nossa luta pela democracia na América do Sul.

É um momento difícil. Não tem sido fácil. É uma briga. É uma guerra do bem contra o mal. Não lutamos contra a carne nem o sangue, mas contra os principados e potestades das trevas. Creio que vamos vencer, porque a Estrela da Manhã está louvando nosso caminho. As promessas do senhor vão se cumprir em nossa missão.

O lançamento de Minha Luta (2020) foi um dos poucos verdadeiros eventos na história da literatura brasileira. Hoje, nossa experiência do livro é apenas como de uma estranha lembrança fornecida por uma época já distante – para nós, é até mesmo difícil imaginar o impacto verdadeiramente traumático que seu aparecimento teve na República das Letras.

O impacto do livro esteve longe de se restringir a círculos patriotas: mesmo o comunista Ricardo Lísias foi claramente afetado por Minha Luta, havendo alguns sinais inconfundíveis disso no segundo volume de Diário da catástrofe brasileira.



Quais são suas referências literárias?

M: A literatura brasileira surge com a chegada das caravelas portuguesas no Brasil, com a carta de Pero Vaz de Caminha. Existe muita coisa escrita, tem que suavizar. Eu gosto bastante de ler biografia. Li centenas de biografias de escritores. A última que eu li de biografia, puxa vida, eu tenho uma péssima memória.

Minha principal referência literária é um dos maiores pensadores da história do nosso país, o Filósofo e Professor Orvalho de Farfalho. Ele foi um gigante na luta pela liberdade e um farol para milhões de brasileiros. Seu exemplo e seus ensinamentos nos marcarão para sempre. Aí na Terra seus livros, vídeos e ensinamentos permanecerão por muito tempo ainda.



Lida bem com as críticas?

M: Muitas lições e até mesmo críticas de Orvalho de Farfalho (sempre com a melhor das intenções) nos ajudaram a refletir e crescer. Agora, o outro lado, nego bateu em mim até não querer mais. Eu sou atacado o tempo todo pela esquerda. Já li todo o tipo de mentira, calúnia, falta de respeito e até ameaça de porrada.

Nossa maior referência foi o mais perseguido e mesmo assassinado com requintes de tortura. Se essa injustiça aconteceu com Jesus, não seremos nós a vir para a Terra para receber apenas aplausos.

Eu considero as críticas como liberdade de expressão. E para mim isso aí faz parte da democracia. Então, Pariz, eu não vejo nada demais, vejo como liberdade de expressão – como alguns fazem com o AI-5. Nem existe mais AI-5, você querer punir alguém por ter levantado uma faixinha no meio da multidão escrito AI-5, isso daí é uma coisa que no meu entender não leva a lugar nenhum. Quando alguns falam em fechar o Congresso, é liberdade de expressão deles. Eu não posso ameaçar fechar o Congresso ou o Supremo Tribunal Federal.

Faço uma pergunta para simples reflexão: por que focam as baterias para me atacar se simplesmente disse a verdade? Se respondo sou isso, se me calo sou aquilo. Eu não errei nada do que eu falei. Não se deixem levar por quem sempre escravizou suas mentes. Estão desesperados! A esquerda quer controlar a imprensa, coibir a liberdade de expressão, censurar a internet e apoiar financeiramente ditaduras como Cuba e Venezuela.

Podemos perdoar as críticas, mas não podemos esquecer. Está claro quem sempre usou da mentira para manipular a população. Não apenas sobre mim, mas sobre eles mesmos. Os movimentos calculados e imediatos após qualquer aparição minha são tão previsíveis que chegam a ser patéticos! Isso enquanto omitem qualquer fato exposto nas redes sociais! Por isso querem tanto controlá-la. É tudo pela democracia, pode Confiar!



Está trabalhando em algum livro no momento?

M: Desde que morri tenho sido cobrado a escrever um livro sobre a educação. Em 2022 a demanda cresceu, por incentivo do Cachorro do Hades. Pedagogia do Opressor: Basta de Paulo Freire! é, em parte, uma tentativa de atender a essas solicitações. Quando aceitei escrevê-lo, não o fiz por poder ou prestígio. Eu acredito em uma missão. Escrevo esse novo livro – que deverá ser o meu último – para restaurar a hiper-realidade cis-hétero-falocrática institucionalizada na educação brasileira. A tese que pretendo defender considera que a filosofia do Paulo Freire da vida, esse energúmeno, ídolo da esquerda, se filia à tradição crítica anticapitalista, caracterizada pela negação da realidade dada e pelo vislumbre de sua superação. Em contrapartida, a diatribe de Orvalho de Farfalho ergue-se como uma contribuição consistente com a subordinação às cosmovisões conservadoras, afinadas ao imperativo capitalista. A revisão de literatura revela uma ausência, talvez um esquecimento em relação à contribuição de Orvalho de Farfalho para as concepções críticas de filosofia da Educação.



O que seria de sua vida sem as letras?

M: Estou morto, porra! Perguntando-se qual a importância da literatura, vê-se um campo de infinitas possibilidades: a literatura e o conhecimento da alma humana sempre andaram juntos. Um mundo sem literatura se transformaria num mundo sem desejos, sem ideais, sem desobediência, um mundo de autômatos privados daquilo que torna humano um ser humano: a capacidade de sair de si mesmo e de se transformar em outro, em outros, modelados pela argila dos nossos sonhos.

Quem não consegue interpretar uma obra de literatura corretamente não conseguirá jamais entender os fatos da história e da sociedade, ou mesmo os da sua própria vida. A cultura literária é a condição mais básica do entendimento. Mas estou com o saco cheio de ver pessoas que não sabem ler “Batatinha quando nasce” interpretando nada menos que a Bíblia.



Dê uma (ou mais) dica(s) para quem quer ser escritor:

M: Vamos lá. O que eu tenho a falar para os futuros escritores brasileiros? Peguei o Brasil em uma situação crítica na questão ética, moral e econômica. Começamos a trabalhar, fizemos muitas reformas. Em arte como no amor (penso eu), é melhor causar náuseas do que não causar coisa nenhuma. Compila os anais da devassidão, o cafarnaum da escória; separa as coisas, faz uma seleção inteligente; procede como um avarento com seu tesouro e se detém no entulho. Nada de canetada...

Defenda a inocência das crianças nas salas de aula, que o filho do seu João e da dona Maria aprenda português sem sacrificar a vivacidade direta das suas intuições estéticas às exigências de algum gramático ranheta.

Não se esqueça que o outro cara, o de nove dedos, falou que vai acabar com a questão do armamento no Brasil, tá? Vai recolher as armas, clube de tiro vai virar biblioteca. Como se ele fosse algum exemplo para isso.

Agora vamos lá pessoal. O que está em jogo? Qual o nosso futuro? Os livros são apenas placas indicadoras, como as das estradas, apenas setas. Eles indicam algo, um caminho a ser seguido. Morram no tempo certo!

Encerrou? Muito obrigado aí e até a próxima. Henrique, leitor, leitora, até a próxima.








Messias Botnaro, o inimaginável, nasceu em Glicério (SP), em 1955. Morreu em Brasília (DF), em março de 2020. Causa mortis: B34.2. U07.1. Foi o primeiro narrador e personagem da história da literatura brasileira (quiçá mundial) a morrer de Covid-19. Defunto autor dos livros impressos Minha Luta (Cousa, 2020), Novo Febeapá (Clube de Autores, 2022) e armas e rosas: poesia de testemunho por desapropriação (Pedregulho, 2022). Também publicou dez livros digitais: Tuítes póstumos de um herói nacional (202), A guerra da cloroquina contra o comunavírus chinês (2020), Tuítes póstumos de um herói nacional censurado (2021), Manifesto Copista (2021), Escremorrências: Diálogos insubmissos (2021), Tratamento precoce: Minha Luta contra o comunavírus (2021), CPI da Covid 1: insólito, dialogismo, polifonia (2021), CPI da Covid 2: não olhem pra vacina (2021), Minha luta contra a ditadura gay e a ideologia de gênero (2022), Minha luta contra os afromimizentos (2022).





Ilustrador oficial: Marcio Vaccari.


 

sábado, 17 de setembro de 2022

‘A boa bicha’ (RESENHA)

 


‘Gay’ não é xingamento.

‘Bicha’ é elogio.

“É experimental, é bicha e os leitores olharam e serão olhados durante o contato com essas histórias que materializam esta pinta-primeira do autor.” - trecho da orelha por Fabrício Fernandez

“Deixamos a arte agonizar até a morte, incapazes de qualquer coisa além de assistir condescendentes[…] E nós ficamos aqui, grunhindo, procurando o poema enquanto reviramos o lixo do passado a procura de uma rima qualquer ou um pedaço de métrica que nos sirva para refeição diária enquanto os dias não melhoram.” - trecho do ‘Prefácio sujo’ - Pág. 11/12

“[...] a boa bicha está sempre preparada.” - Pág. 27

Cada pedaço seu fica em cada conto.
Contos estes de cinismo, sensualidades, são verdadeiras sombras da modernidade.
Histórias de uma cidade cinza, de pessoas frias e sensações secas.

“Estou na rua hoje é para escrever. Escrever com meu corpo.” - Pág. 16

‘A boa bicha’ de Rodrigo é como um prisma que te faz viver ene sentimentos em uma única sentada; é aquela olhadela pelo buraco úmido da fechadura.

“Abro os olhos e vejo minha vítima ali. Estuprado. Ele chora de forma tão sentida. Eu o violei isso me excita muito. Seu pênis está caído e flácido, ou seja, gozei roçando minha vagina sobre seu órgão desexcitado.” - Pág. 66

É também um livro bem trabalhado, aliás reúne textos de mais de 10 anos, que abordam temas como o amor, a solidão, morte e o desejo. O autor rasga seus personagens, dissecando em seus contos, e nos mostra as delícias e os dissabores que o tornam humanos.

“Os seres desumanizados trajam preto ou branco, rendendo à paisagem mais tons de cinza e menos vida nos guetos e nos retos prédios, que cortam o céu em tiras. A única forma curva, o sol, é engolida aos poucos pelos arranha-céus, e o espaço de aço e concreto é tomado pelas sombras.” - Pág. 97

A nudez de suas palavras é o que torna um livro único, gostoso de dedilhar.
A boa bicha’ não teme mãos e olhos experientes, mas é também um deleite aos toques trêmulos.
Pegue, folheie, goze ao som dos contos, eu recomendo.

Vai sem medo,

e boa leitura!


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

‘Meninão do caixote’ (RESENHA)

 




João Antônio retrata nesse livro de contos uma triste realidade de garotos tentando viver à sua maneira nas ruas, o que infelizmente a torna uma obra tão atual mesmo tendo sido escrita em 60 e publicada em 1983.

“…ensinara-lhe engraxar, tomar conta de carro, lavar carro, se virar vendendo canudo e coisas dentro da cesta de taquara. E até ver horas.” - Pág. 17

‘Meninão do caixote’ é um livro forte, indicado para o público infanto na época de sua publicação, mostrando aos pequenos leitores mazelas e desafios de um Brasil pouco mostrado nos livros.

“Nem se sonhava com transistor, mas todos ouviam rádio. À noite, A Voz do Brasil era obrigação para se ficar sabendo das coisas[...] Tínhamos as fichas de racionamento, e nas noites de blackout, falavam na possibilidade de sofrermos fome.” - Pág. 50

Há tempos venho querendo ler João, escritor nacional ‘esquecido’ nas rodas dos ‘grandes literatos’, mesmo sendo um dos maiores representantes da literatura de sua geração.

“Prometeu baixar o custo de vida. Em dois anos o custo dobrou.

Memória fraca, a da gente.” - Pág. 56

Um autor vencedor de vários prêmios literários importantes - entre eles o Prêmio jabuti em 1963 e 1965 - além de ter seus livros traduzidos para mais de 10 idiomas.

“- Gostos e bofetadas são diferentes.

Até hoje.” - Pág. 65

Não me surpreendi ao ler, nestes quatro contos potentes e sensíveis de ‘meninão do caixote’, que a literatura brasileira ainda carrega sua imponência.

Que em suas marcas históricas - algumas descritas no livro - leva consigo as desigualdades sociais, o descaso político, a falta de informação e sobretudo o abandono do povo.

“Vitorino era meu patrão[…] punha-me o dinheiro na mão, mandava-me jogar.” - Pág. 94

Recomendo muito João Antônio para todas as idades,

Boa leitura!


quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Solidões imprevisíveis de Airton Souza em ‘Cortejo e outras begônias’ (RESENHA) #SêPoesia

 



“até as flores
possuem gasturas breves” - Pág. 62

Temas recorrentes na poesia de Airton: o tempo, a saudade e a morte.

É um livro denso, cheio de camadas, não é para ser lido em uma sentada apenas. ‘Cortejo e outras begônias’ é gostoso de ler, mas requer um dia leve.

“homens sabem do sóis
das sombras das pedras
mas a primavera sempre vem
avisar-lhe do objeto final:
morrer.” - Pág. 40

Um livro fragmentado, com seus poemas-caco que perfuram e rasgam fundo, dividido em: ‘tragicômico’, ‘pelos dias’, ‘itinerário incurável’ e ‘de solidões se fazem os dias’.

“não importa a causa
as solidões
são sempre iguais.” - Pág. 80

Os poemas sem títulos, alguns dedicados e iniciando com letras minúsculas me deu uma sensação de naufrágio. Um marasmo. Acho que os dias e as páginas deste livro tendem a te deixar com sede, afinal são poemas secos demais para mais um dia ameno.

“leva contigo o invisível
branco de outras páginas e palavras
porque não te resta nada
a não ser poesia estendida
no estopim confessional
de flores & ausências.” - Pág. 104

O livro foi vencedor do III Prêmio UFES de Literatura na categoria poesia em 2015.






💙 Sobre o #SêPoesia:

A Thay Fracarolli, do @galeoteca, e eu resolvemos nos juntar para um desafio ao qual nomeamos #sêpoesia , onde falaremos sobre poetas nacionais maravilhosos e obras riquíssimas ao longo do ano.
Eu com ‘Cortejo e outras begônias’ de Airton Souza e a Thay com ‘História versada de uma breve vida’ da Lara Couto.





#SêPoesia #LaraCouto #AirtonSouza #LiteraturaBrasileira #Literatura #Livros #Poesia #InstaLivros


sábado, 27 de agosto de 2022

Guananira (RESENHA)

 

Guananira (Editora Maré/A lápis, 2019)



Bernadette declama Vitória como os poetas do século XIX, quase sempre com olhar contemplativo, mas sua visão moderna não deixa escapar os descasos pela sua ilha.

“O Centro de Vitória é como uma caixinha de nossas memórias, é como labirinto em que se cruzam os vivos e os mortos. Pena é que, todos eles, os mortos e os vivos, diariamente tropeçam naquelas maltratadas calçadas que, por descuido ou omissão daqueles a quem caberia cuidá-las, abre em lascas, fendas e feridas ao longo das ancestrais ruas do Centro.” - Pág. 22

‘Guananira’ é um livro de crônicas leve e memorialístico, com textos que beiram a prosa poética, um livro gostoso e de leitura muito fluida.

“Uma nostalgia que ultimamente vem me atacando… Costuma dar em escritores e em camaleões. É coisa de insignificâncias, portanto. Mas, graças a isso é que se sabe: para quem pisa com amor sobre o solo bendito desta Vitória/Guananira nada está perdido. Não estão perdidos nem o sentimento, nem o afeto, nem mesmo a formosura das pedras.” - Pág. 26

São textos curtos, um passeio pelo emaranhado de ruas, vielas, calçadas, praias e montanhas: Guananira é essencialmente banhada pelas crônicas de Bernadette. Uma verdadeira cartografia poética da ilha de Vitória.

“Porém, a verdade é que eu sou uma capixaba alucinada de amor… qualquer coisa do Espírito Santo me toque… para que todo o meu ser se reparta e… eu me lembre que estou permanentemente em exílio.” - Pág. 99

Se você quer conhecer um tiquinho do coração do Espírito Santo, pelos olhos de uma das grandes autoras daqui, este livro é uma boa pedida, um ótimo começo.

Bernadette é quase uma guia turística que nos leva pelas veias de Vitória.



Aproveite a viagem,



Boa leitura!

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

o rasgo fundo de ‘Flor de gume’ (RESENHA) de Monique Malcher

 

Flor de Gume (Editora Jandaíra, 2020)


Monique é uma escritora ilhada na cidade, uma árvore em constante busca de nutrientes, no cimento cinza de Santa Catarina, depois de São Paulo. É o Norte deslocado.

“Sou embarcação, foi a cidade que às vezes fez o coração afogar.” - Pág. 28

‘Flor de gume’ é um livro carregado de amores e dores, complexo como todo ser humano, carregado de textos fortes e certeiros. A autora nos leva a caminhos tortuosos - e alguns gostosos - quase sempre com seus tons subjetivos, de verde, em contos curtos e recheados de sabores.

“O cajueiro viu as crianças crescerem, ouviu palavras feias, chorou escondido quando a tempestade teimou. E o coração do cajueiro pegou o ritmo tum-tum-tum dos corações das mulheres da casa.” - Pág. 57

Monique Malcher, diferente de outros contistas que acompanho, me ganhou pelos parágrafos iniciais, sempre impactantes, incisivos. Deixando em meu deliciado olhar de leitor uma vontade de ‘quero mais’.

“As mulheres choram muito nas alquimias, quantos pratos comeram misturados com prantos? Era uma pintora trancada no quadro que os homens desenharam.” - Pág. 74

O livro é um compilado de histórias de mulheres: filhas, mães, avós e seus relacionamentos com o mundo machista e capitalista que as cercam.

Em seu mais amplo significado ‘flor de gume’ descreve rasgos nas memórias das personagens dispostas em seus contos.

“E eu estava faminta de um cuidado, mas só tinha a violência para roer, e cheguei ao osso sem resposta nem amor.” - Pág. 103

Em tempo, como diz Jarid Arraes na orelha do livro: “flor de gume é jornada.”

É um passeio pelas crenças, ancestralidade e também na crueza que é viver humanamente.

“Desci a ladeira, nas mãos uma rosa amarela, suportei bem os espinhos.” - Pág. 114




PS. O conto ‘o barco e as cartografias da esperança’ é o meu favorito. Tocou meu coração e me arrancou lágrimas, foi certeiro nas lembranças de Mãe.


quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Entrevistando Contemporâneos & Independentes – Monique Malcher



Como a literatura entrou em sua vida?

M: Minha vó colocava miúdas flores nos meus cabelos e contava histórias para dar um jeito nas lágrimas de uma queda. Ela contava tão bem que me sentia no espaço que aquelas palavras formavam com sons e texturas. Foi para encarar e curar as primeiras quedas que a literatura - pela palavra falada - se impôs na minha jornada.



Qual foi o papel da leitura para a construção do seu eu autor?

M: Ler livros sempre foi e continua sendo de grande importância, mas saber ler um rosto, uma respiração ou um silêncio entre os adultos… isso foi bem mais a leitura que foi se colocando como o carro de meu baralho. Depois fui ver na antropologia práticas que eram minhas e que me colocavam no lugar de uma criança estranha que ouve além do que lhe é permitido.



Consegue viver de literatura?

M: Hoje consigo, mas ainda não é confortável. Pago as contas e preciso trabalhar o triplo do que um trabalho com carteira assinada. É desafiador no mínimo.



Qual a maior dificuldade que encontra para chegar ao público leitor?

M: A tentativa de apagamento de grandes mídias, existe uma resistência de concordar que uma mulher do norte pode escrever bem e ser lida. Sempre penso que basta eu ter a oportunidade de chegar nos leitores, chegando.. eu confio no caos que a palavra é capaz de fazer.



Quais são suas referências literárias?

M: São as mulheres referências hahaha. Leio muito mais poetas e escritoras. A poesia ainda é o gênero que mais leio mesmo escrevendo prosa, mas amo também as contistas. Eneida de Moraes, Olga Savary, Conceição Evaristo, Sylvia Plath, Maya Angelou… de homens posso citar Milton Hatoum, Cortázar, Raduan Nassar.



Lida bem com as críticas?

M: Muito bem quando não são capas para esconder xenofóbicas e outros preconceitos. Amo ser editada, ter o texto rabiscado, retalhado, comentado. Aprender a ser eu é o que ganho com as críticas.



Está trabalhando em algum livro no momento?

M: Estou trabalhando em um novo livro, sou rápida pra escrever, mas lenta na pesquisa, gosto muito do processo criativo e não tenho pressa de publicar. A palavra dita o tempo. Não posso falar muito sobre hahaha.



O que seria de sua vida sem as letras?

M: Provavelmente eu me mataria se não pudesse escrever.



Dê uma (ou mais) dica(s) para quem quer ser escritor:

M: A primeira escrita deve ser sem filtros, pense em um vaso, ele não nasce vaso, primeiro é um amontoado de barro feio e sem forma. Nenhum texto nasce pronto, ele precisa de seu artesão para se revelar. Anote tudo e principalmente aquilo que parece bobagem. Seja um grande pesquisador, estude tudo sobre o tema, se torne o tema. Não tenha pressa.








Monique Malcher é escritora e artista plástica nascida em Santarém, interior do Pará. Hoje reside em São Paulo. Tem um livro publicado pela Editora Jandaíra que se chama “Flor de Gume” com edição da escritora Jarid Arraes. O livro foi ganhador do prêmio Jabuti 2021 na categoria Contos. Monique também é uma das coordenadoras do Clube de Escritoras Paraenses. Mestre em antropologia (UFPA) e doutoranda interdisciplinar em ciências humanas (UFSC) pesquisando literatura e quadrinhos produzidos por mulheres. Flor de Gume foi lido por mais de 20 clubes de leitura espalhados pelo país em quase dois anos, sendo alguns do projeto Leia Mulheres e um do Memorial da América Latina.


 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Divulgue sua obra no VITRINE LITERÁRIA do FOLHA VITÓRIA

 




O 'Vitrine Literária' é um espaço aberto aos escritores capixabas que estão fora do grande circuito editorial e que querem divulgar e comercializar as suas obras.

O jornal Folha Vitória tem um espaço para você, escritor capixaba, que não consegue acesso às grandes livrarias e pontos de comercialização. O projeto 'Vitrine Literária' dá visibilidade às obras de escritores locais.

O espaço é uma 'vitrine' para autores do Espírito Santo. O público também tem acesso a diferentes obras e já consegue adquirir os livros diretamente com os escritores.

>> DIVULGAÇÃO DAS OBRAS <<

Quem selecionará essas obras para divulgação é o curador e poeta Henrique Pariz. O escritor poderá entrar em contato pelo telefone (27) 9 8846 4289 ou pelo e-mail (henriquepariz@hotmail.com). Depois disso, Pariz fará uma avaliação da obra.

Pariz nasceu em Linhares, no Norte do Espírito Santo. Agitador cultural, o poeta toca um projeto sobre literatura nacional e regional no Instagram @palavrasmargina_es, além de ser editor e cofundador da 'Moqueca Editorial.'

Ele lançou também o e-book "De$contos" (2020, Moqueca Editorial) com textos híbridos na Amazon, além do e-zine "Notas que trago nas entranhas", mais recente obra de poesias (2020, edição do autor).

Os critérios para divulgação no 'Vitrine Literária' são autores capixabas vivos e preferencialmente contemporâneos. O Vitrine procura escritores e autores independentes e que a literatura esteja sempre em movimento, para além da academia.

São aceitos todos os gêneros literários e também os não literários. Qualquer tipo de material: livro, livreto, Zine e afins. A literatura precisa ter sido produzida no Espírito Santo.


Conheça o VITRINE LITERÁRIA clicando aqui!

Neca+20 Poemetos Travessos (RESENHA) #SêPoesia

 




‘Neca’ é um universo a parte dentro do livro de Amara Moira.

É o primeiro texto que antecede a coleção de poemas, com uma narrativa fluida, em forma de monólogo onde a narradora nos apresenta um pouco do que vem a seguir.

Um texto seco, cruel e auto explicativo do que se passa numa noite em um corpo-travesti, quase uma síntese da [sobre] vivência desses corpos tão marginalizados.

Em uma prosa potente, forte, Amara nos empurra goela abaixo - e em poucas páginas - as gírias, a língua e a vida das pessoas trans, em sua maioria trabalhadoras do sexo, tentando uma mínima subsistência.

‘Neca’, esse primeiro escrito é sobretudo uma forma de marcar na história as desigualdades de uma ‘minoria’ e o poder da héteronormatividade sobre alguns corpos, escancarando ainda mais a hierarquia dos gêneros, mostrando também uma arma infalível contra a ignorância e a maldade humana: a palavra.

É uma aula do abismo entre a linguagem formal e acadêmica e o dialeto-vivo e patrimônio linguístico (Enem, 2018) o pajubá das travestis.

Já os poemetos travessos é formado de uma coleção de 20 poemas, alguns inéditos, curtos e bem diretos: versos do que já fora dito no texto em prosa, na primeira parte do livro.

É a conclusão Redondinha da vida da travesti expandido-se neste livro tão potente e representativo.






💙Sobre o #SêPoesia:

A Thay Fracarolli, do @galeoteca, e eu resolvemos nos juntar para um desafio ao qual nomeamos #sêpoesia , onde falaremos sobre poetas nacionais maravilhosos e obras riquíssimas ao longo do ano.

Eu com ‘Neca + 20 poemetos travessos’ de Amara Moira e a Thay com ‘Almas’ do Alan Silva.







#SêPoesia #AlanSilva #AmaraMoira #LiteraturaBrasileira #Literatura #Livros #Poesia #InstaLivros


sábado, 9 de julho de 2022

Trechos que te farão querer ler o ‘SEJAMOS TODOS FEMINISTAS’

 



🖤📝 “Eu já tinha participado de uma conferência [...] com uma palestra chamada “O perigo de uma história só”, sobre como estereótipos limitam e formatam nosso pensamento, especialmente quando se trata da África [...] como a própria ideia de feminismo, também é limitada por estereótipos.” - Pág 7/8;

🖤📝 “Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência ela se torna normal [...] Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar “normal” que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens.” - Pág 16/17;

🖤📝 “A já falecida queniana Wangari Maathai, ganhadora do Prêmio Nobel da paz [...] disse que quanto mais perto do topo chegamos, menos mulheres encontramos.” - Pág 20;

🖤📝 “A raiva, o tom dele dizia, não cai bem em mulheres. Uma mulher não deve expressar raiva, porque a raiva ameaça.” - Pág 24/25;

🖤📝 “Mas por que ensinamos as meninas a aspirar o casamento, mas não fazemos o mesmo com os meninos?” - Pág 32;

🖤📝 “A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.” - Pág 48;
🖤📝 “A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: “sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar.” - Pág 49/50;





💙📝 Sobre a autora: Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, Nigéria, em 1977. É autora dos romances Meio sol amarelo (2008) – vencedor do Orange Prize, Hibisco roxo (2011) e Americanah (2014). Sua obra foi traduzida para mais de trinta línguas e apareceu em inúmeros periódicos, como as revistas New Yorker.