"a-maior-função-do-homem-no-mundo-é-transformar-se-em--literatura" - Reinaldo Santos Neves

domingo, 4 de janeiro de 2026

A palavra que resta [RESENHA]

 


“[…] o bom da vida é teimar,” - Pág. 18

‘A palavra que resta’ é um livro muito poético, com toda força que a poesia carrega, que nos pega pelas mãos - e a cada capítulo - nos entrega uma palavra que puxa outra e outra…

A letra e a língua como palco para a história de Raimundo e Cícero, que através de uma carta - guardada sem ser lida a mais de cinquenta anos - descortina ao leitor a história de um grande amor interrompido pelo tempo, pelos preconceitos e violências, pela miséria.

“Uma chuva fina e ligeira excitou o chão. A vista de Raimundo escapulia até o corpo do outro, de peito duro descamisado, coberto de suor e poeira. Paisagem que desperta num pássaro preso o desejo de voar. Raimundo gaiola.” - Pág. 14

Stênio Gardel, cearense de Limoeiro do Norte, cria uma narrativa lancinante e visceral ao mesmo tempo, não a toa já com o seu primeiro romance venceu o National Book Awards (2023), foi indicado ao Prêmio Jabuti (2021), teve seus direitos comprados para uma possível adaptação cinematográfica. Além de ter sido traduzido para o italiano, o inglês, holandês. A peça de teatro, sob a direção de Daniel Herz, retornou aos cartazes em 2025 no Rio de Janeiro.

“[…] tem lembrança que parece noda de caju, fica na gente nem que você não queira[…]” - Pág. 24

O livro parece uma grande carta que Raimundo escrevera para nós leitores, senti isso quando o lia. A história é um Entrelaços de memórias do personagem, uma costura do passado com presente, suas lembranças escritas e remendadas cheias de cicatrizes que o autor faz questão de mostrar.

“[…] a quietude premonitória do corpo do rio[…] E o lençol d’água vestiu-se da tranquilidade marmórea dos túmulos.” - Pág. 55

O artefato em minhas mãos é um livro de sotaque, que me lembrou Salomão Larêdo, Monique Malcher, Dia Nobre, escritas que trazem minha mãe comigo em palavras, que me faz caminhar pelas páginas de um tempo reminiscente, que fisgam da herança linguística familiar cada sílaba esquecida.

Stênio põe no papel e em sua prosa poética com excelência e expõe o tutano do osso; a oralidade na sua mais simples e pura significância. letra minúscula onde ‘não deve’, pontuação no lugar ‘errado’, as palavras de Gardel me parecem língua atropelando vis e desnecessários academicismos, eu amo!

“[…] o fim certo é que é bom, é o fim certo que empurra a gente, não fosse a certeza do fim, a gente ia viver igual todo santo dia?” - Pág. 130


‘sátiros solitários abandonados por Eros no cinema’ [RESENHA]

 


“Veados nada mais são do que abstrações de homens.” - Pág. 23

A cisma do sátiro solitário, do guei de não poder estar com outro em público, e principalmente - isso retratos de uma época, 1990 - a feminilidade como sendo algo ruim e a binaridade muito marcada nos textos de Luís Capucho.

“ No mofo do cinema eu me iludo
No bafo do cinema eu me afundo
[…] De dez às dez
Abre as portas para os fiéis
Seja uma igreja
Seja um cinema
O Orly me beija[…]” - Pág. 30

O falocentrismo como centro de cada conto, narrativas movidas pela pornografia e pelo homoerotismo, formas rasas de se pensar a comunidade LGBTQIAPN+ hoje em dia, mas que me trouxe muitas reflexões sendo a principal delas a relação de homens cis gays com o seus corpos - sempre com foco no falo.

“Quando via a sua masculinidade se trair numa fisionomia, na entonação de uma frase, eu via mais buracos por onde pudesse escapar, no entanto, eu continuava a nadar no seu pequeno aquário.” - Pág. 40

Algumas coisas me incomodaram na leitura, uma delas foi a repetição dos textos que endeusam em sua maioria o ‘falo’ - tudo gira em torno do pau, o que torna cada conto superficial demais pra mim - ainda falando de incômodos, a forma como é tocado ‘nos’ travestis me fez pensar bastante na exclusão e distanciamento da letra T das pessoas trans na sigla da comunidade por parte dos gays e as questões de invisibilização e disputas dentro do próprio ecosistema que deveria se proteger para sobreviver e não o contrário.

“[…] os que frequentávamos o Orly, éramos especialmente um bando de eliminados. Adorávamos o sexo heterossexual que vimos na tela, nos sujeitávamos à infecções[…] somente o gueto do Orly nos era permitido[…]” - Pág. 92

São contos curtos e autobiográficos, pra quem gosta de textos eróticos e homoafetivos, com uma pitada do ‘nem tão bom’ e velho sentimento de dedo no cu e gritaria. Um ponto positivo pra mim são as ilustrações de César Lobo, com modelos nus masculinos, em cada início de capítulo que ditam o tom do que virá nas próximas páginas.

Apesar das críticas eu gostei do livro, curti a leitura por ser bastante fluida e a escrita de Capucho ser muito direta, vou até reler algum dia Cinema Orly.

“No Orly[…] todos preferíamos ser apenas uma imagem, sem alma.” - Pág. 63



domingo, 21 de dezembro de 2025

As traças [RESENHA & divagações sobre o futuro do IG]

 


“Somente uma mulher poderia despertar nela a magia do amor.” - Pág. 76

Cassandra mais uma vez nos dita uma fotografia de um tempo, desta vez acompanhamos uma adolescente se entendendo como lésbica, descobrindo o amor, as delícias e os sangramentos de um coração que bate numa velocidade incalculável e a solidão da juventude queer LGBTQIAPN+.

“Viu-a e ela também a olhou. Foi um olhar dentro dos olhos, que se cruzou inesperadamente[…] Não foi um olhar comum. Havia algo. Uma força comunicativa, de procura, de saudade, de dizer coisas que estavam caladas no fundo da alma.” - Pág. 72

Na história acompanhamos Andréa, que se apaixona por sua professora, Berenice. Paixão essa ignorada de primeira pela profissional. Como plano de fundo temos o mergulho que a protagonista faz em direção às drogas, a lbgtfobia e morais religiosos da época além dos discursos em prol dos bons costumes, da heteronormatividade, ética e pela tradicional família brasileira que custou tanto à autora na vida real. O texto lembra e muito a biografia de Cassandra Rios, deve ser por isso que eu adoro sua escrita.

“Sou traça! Tentando passar despercebida entre os outros, sinto-me como a traça que se esconde entre as costuras dos livros para no fim morrer esmagada entre suas páginas.” - Pág. 214

Em todas as obras de Cassandra vemos o que chamam de ‘livro de empregada’ - tipo romances de folhetim -, uma linguagem franca e nada rebuscada, crua na mais sincera tradução da palavra. Sua literatura também é cinematográfica e em ‘As traças’ não é diferente, a autora nos brinda com cenas bem escritas e uma narrativa muito visual.

“E as bocas se esmagaram num beijo doido e frenético. Num movimento rápido Berenice deitou-a na cama e estendeu-se em cima dela, esfregando-se, assanhando-a, as mãos percorrendo-lhe o corpo nu.” - Pág. 166

O que mais me surpreendeu no livro em si foi o final: inesperadíssimo.









Li esse livro tem um tempo já, mas só voltei para escrever a resenha por causa da empolgação com o @clubeobscenalucidez, tesão esse que me reavivou a fraca chama que ainda me sobrava da literatura no peito, com isso veio também a mudança do espaço do sebo (esses meses têm sido uma loucura).

Enfim, espero que você tenha gostado e que me acompanhe mais por aqui,

Até breve!


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

De Pepetela a Suely Bispo e Padre Júlio Lancellotti: Flinc reúne pluralidade de vozes no Espírito Santo

 

Com curadoria de Isabella Baltazar, a primeira Festa Literária Internacional Capixaba é gratuita, e acontece de 10 a 12 de outubro, no Parque Cultural Casa do Governador

O Espírito Santo ganha um novo marco cultural com a chegada da 1ª edição da Festa Literária Internacional Capixaba (Flinc), um evento gratuito que ocupará o Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha, de 10 a 12 de outubro de 2025. Com mais de 30 atividades programadas, incluindo mesas de debate, lançamentos de livros, oficinas, espetáculos musicais e um espaço dedicado ao público infantil, a Flinquinha, o festival promete ser um ponto de encontro singular para amantes da literatura e da cultura. 

O festival nasce para somar ao fortalecimento da cena artística do Espírito Santo, hoje em plena expansão. Idealizada pela doutora em Literatura e curadora Isabella Baltazar, a Flinc se destaca por sua gratuidade total, afirmando que “literatura é direito e não privilégio”. A curadoria de Isabella reforça a proposta de criar um espaço de diálogo onde a literatura atua como ponte entre culturas, tempos e vozes, promovendo uma experiência plural, acessível e inclusiva. A programação completa será divulgada em breve no site e redes sociais oficiais da Flinc. 

“A essência da festa é a celebração da literatura como um tecido de vozes múltiplas – vindas de diferentes lugares de enunciação, com forças e tons diversos. Queremos que o público leve consigo a certeza de que a literatura não está apenas nas páginas escritas, mas também na oralidade, na melodia, no corpo. A Flinc é um espaço aberto em que a literatura é via de educação, diversidade e representatividade”, afirma Isabella.



Convidados nacionais e internacionais 


Entre os nomes de relevância nacional e internacional já confirmados para esta edição, o público terá a oportunidade de encontrar: Pepetela, aclamado escritor angolano e ganhador do Prêmio Camões; Cidinha da Silva, escritora que atravessa diferentes gêneros literários com sua escrita marcadamente política; Nei Lopes, sambista, escritor e estudioso da cultura afro-brasileira; Micheliny Verunschk, ganhadora do Prêmio Jabuti, reconhecida por sua prosa que envolve uma prática historiográfica; Vera Iaconelli, psicanalista e escritora; Bernadette Lyra, renomada escritora capixaba; Geni Nuñez, escritora e ativista indígena; Padre Júlio Lancellotti, figura emblemática por seu trabalho social e humanitário; Andreone Medrado, autora doutora em Psicologia que traz uma perspectiva anticolonial sobre raça, gênero e sexualidade em sua produção; Suely Bispo, poeta e atriz que explora temas de ancestralidade e resistência negra; e muito mais. 

Esses participantes, com suas trajetórias diversas, trazem olhares que ampliam e enriquecem as conexões promovidas pela Flinc, que se afirma como espaço de encontro e de diálogo literário. Além da programação de mesas e atividades, o evento contará com a presença de editoras capixabas e nacionais, expandindo as possibilidades de circulação de livros e de acesso às produções contemporâneas.


Homenagem à Vera Viana 


A festa também presta uma homenagem especial à memória de Vera Viana, atriz, dramaturga e uma das figuras fundamentais da cultura do Espírito Santo. Conhecida por sua versatilidade em diversos gêneros, Vera teve uma trajetória marcada pela paixão aos palcos desde a infância, evoluindo para uma carreira premiada como autora, diretora e produtora. Sua obra, que inclui textos aclamados como "Mulher, Mulher" e "Duas Mulheres na Madrugada", foi essencial para projetar o teatro capixaba em festivais nacionais, consolidando seu legado como uma artista visionária. 

Além de sua produção artística, Vera Viana, mulher negra, foi uma incansável ativista cultural. Como secretária municipal de Cultura de Vitória, foi uma das idealizadoras da Lei Rubem Braga e também do projeto da Escola Técnica Municipal de Teatro, Dança e Música (Fafi), demonstrando um compromisso com o fomento das artes na cidade. Para celebrar sua contribuição, a Flinc entregará uma comenda em nome de Vera Viana, que será recebida por sua filha Carolina Viana Correa Coimbra de Sousa. 

“A minha curadoria parte do meu lugar: sou uma mulher negra com deficiência que cresceu percebendo como a literatura sempre foi tratada como propriedade de poucos. O que se consolidou como ‘centro’ quase nunca nos inclui. Por isso, quando penso uma programação, busco inverter a lógica: abrir espaço para autoras e autores que carregam histórias, corpos e perspectivas que muitas vezes ficam invisíveis nos catálogos oficiais e nos prêmios mais celebrados”, enfatiza Isabella.


Serviço: 1ª Festa Literária Internacional Capixaba (Flinc) 
Data: 10 a 12 de outubro de 2025 
Local: Parque Cultural Casa do Governador, Vila Velha (ES) 
Entrada: Gratuita para todas as atividades 
Patrocínio: Instituto Cultural Vale (@institutoculturalvale) 
Apoio: Parque Cultural Casa do Governador (@parqueculturalcasadogovernador), Secretaria da Cultura do Espírito Santo (@secult.es), A Gazeta (@agazetaes) e TVE Espírito Santo (@TVEespiritosanto) Realização: Letra Preta – Escrita e Imaginações (@letrapreta_) e Sesc-ES (@sescgloriaes), Ministério da Cultura e Governo Federal (@minc) por meio da Lei Rouanet - Incentivo a Projetos Culturais.

Acompanhe a programação completa no link abaixo:

sábado, 4 de outubro de 2025

Diário do Hospício [resenha]

 


“A luta antimanicomial é um movimento político, marcado pela bandeira “por uma sociedade sem manicômios”, que visa superar as formas hospitalocêntricas e excludentes de tratamento psiquiátrico. No Brasil, vincula-se formalmente à Reforma Psiquiátrica, que teve início nos anos 1970.” - Pág. 108

Desde que assisti ao documentário ‘Holocausto Brasileiro’, baseado no livro homônimo de Daniela Arbex (Geração, 2013) venho me interessado pelo tema. E ter lido Lima Barreto só acendeu minha curiosidade.

“Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida.” - Pág. 09

Lima Barreto, assim como Daniela, já vinha denunciando os terrores - isto lá na década de 1920 - do ‘hospício’, no seu caso o Hospital Nacional de Alienados onde o escritor foi internado pela primeira vez em 1914.

“Esta passagem várias vezes no hospício e outros hospitais deu-me não sei que dolorosa angústia de viver que me parece ser sem remédio a minha dor.
Vejo a vida torva e sem saída.” - Pág. 42

Em ‘Diário do hospício’, o autor escancara o que se escondia pelas grades do manicômio, lugar que serve de aparato para um sistema excludente. De pessoas, de classes e raças dominadas. Como Lima escreve em um dos trechos de seu livro: “a ciência é muito curta[…] é melhor empregar o processo da Idade Média: a reclusão.” - Pág. 45. Sistema este até hoje amparado pela polícia e a religião.

“[…] o nosso sistema de tratamento da loucura ainda é o da Idade Média: o sequestro. Não há dinheiro que evite a morte, quando ela tenha de vir; e não há dinheiro nem poder que arrebate um homem da loucura. Aqui, no hospício, com a suas divisões de classes, de vestuário etc., eu só vejo um cemitério: uns estão de carneiro e outros de cova rasa. Mas, assim e assado, a Loucura zomba de todas as vaidades e mergulha todos no insondável mar de seus caprichos incompreensíveis.” - Pág. 49

Além de uma bela descrição do Rio de Janeiro daquela época, que o autor faz na página 50, sua obra destaca a necessidade de questionarmos a justiça e Barreto filosofa ainda sobre a liberdade em suas páginas. Também escreve diariamente sobre as pessoas que passava por ele, fotografias do tempo, que se completam com as ilustrações do livro.

“As leis são como as teias de aranha que prendem os fracos e pequenos insetos, mas são rompidas pelos grandes e fortes.” - Pág. 61

Nesta impecável edição, que saiu pela editora Borda (2020), destaco as ilustrações do artista capixaba Luciano Feijão que utiliza de seus traços e pesquisa para discutir práticas racistas aliadas à políticas cientificistas.

Uma edição perfeita para você que aprecia a literatura atrelada às artes visuais.

“[…] vi, naquele desgraçado, a imagem
da revolta. Esse acontecimento causa-me apreensões e terror. 
A natureza deles. Espelho.” - Pág. 81

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Feira Literária “Diversidade Literária” a FLIVDIL, celebra cultura diversidade e inclusão em Vila Velha

 

A cidade de Vila Velha será palco de um dos mais importantes encontros culturais do ano. A Feira Literária Diversidade Literária acontece nos dias 03, 04 e 05 de outubro, na Praça Duque de Caxias, e promete reunir escritores, leitores, educadores, artistas e o público em geral em torno da paixão pelos livros, da valorização da leitura e da celebração da pluralidade de vozes e narrativas.


Com entrada gratuita, a Feira traz uma programação diversificada que contempla lançamentos de livros, mesas-redondas, contação de histórias, oficinas, apresentações culturais e espaço para editoras, autores independentes e Academias de Letras do Estado. O evento tem como foco principal promover a literatura como ferramenta de inclusão, representatividade e transformação social, dando visibilidade a diferentes identidades, origens e estilos literários.


“Nosso objetivo é abrir espaço para todas as formas de expressão literária e reforçar o papel da leitura como ponte para o diálogo, o respeito e a empatia”, destaca a organização do evento.
A Praça Duque de Caxias, no coração de Vila Velha, será transformada em um grande centro cultural a céu aberto, com atividades para todas as idades, incluindo programação especial para o público infantil e juvenil.



A Feira Literária FLIVDIL é uma realização do coletivo de escritores e escritoras capixabas “Diversidade Literária” e convida toda a comunidade capixaba a participar deste momento de celebração da literatura em suas múltiplas vozes.











Serviço:
📚 FLIVDIL - Feira Literária em Vila Velha “Diversidade Literária”
📅 Dias 03/10/25 de 08h às 20h, 04/10/25 de 09h às 18h e 05/10/25 de 09 às 17h
📍 Local: Praça Duque de Caxias – Vila Velha, ES
🎟 Entrada gratuita
🔗 Programação completa: @coletivodiversidadees


Acompanhe algumas ações dessa festa com os cards abaixo e no Insta do Coletivo:


Nos vemos nesta festa literária,

Até lá!
















quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Mais uma celebração linda da literatura feita no Espírito Santo

 

autoras e autores que lançaram suas obras

O Palácio Anchieta, em Vitória, foi palco, nesta segunda-feira (18), do lançamento do programa Lugares de Ler, uma iniciativa do Governo do Estado, por meio da Secretaria da Cultura (Secult), em parceria com o Instituto Raízes, via chamamento público, que tem como objetivo difundir e desenvolver a leitura no Espírito Santo. A abertura oficial contou também com o tradicional lançamento coletivo de livros produzidos com recursos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura).

Luiz Antônio Simas, palestrante da noite

A solenidade reuniu autoridades, artistas e escritores, entre eles Luiz Antônio Simas, professor, escritor, compositor e palestrante, detentor de dois prêmios Jabuti e autor de mais de dezenove livros sobre cultura brasileira, história social, filosofia popular e religiosidades. Durante o evento, o público assistiu à apresentação de um personagem criado exclusivamente para o Lugares de Ler pelo artista e produtor cultural Cabeluxo, e à performance do Coletivo Emaranhado, referência em artes cênicas no Estado.

Tatiana autografando seu livro 'Ku sanga: práticas de ensino da arte para as relações étnicas-raciais'

O secretário de Estado da Cultura, Fabrício Noronha, falou sobre a importância do evento para a literatura produzida no Espírito Santo. “Hoje é um dia importante para a cultura e, especialmente, para a literatura do nosso estado. Estamos celebrando o segundo ciclo do projeto Lugares de Ler, que incentiva a leitura de forma comunitária e inclusiva, valorizando as histórias de cada lugar. O evento também marca o lançamento coletivo de livros, que amplia o acesso ao conhecimento e apoia o livro por si só, o leitor e o escritor. Como parte dessa ação, 78 municípios receberão as publicações lançadas aqui hoje — obras que mostram o talento dos nossos autores e o trabalho da Secult. Sem contar que é uma honra receber o escritor Luiz Antônio Simas, que enriquece nosso debate cultural. Encontros como este fortalecem o diálogo, a democracia e uma sociedade mais diversa”, destaca.

Reyan Perovano autografando seu livro 'Nil'

Além do lançamento do Projeto Lugares de Ler, aconteceu o tradicional lançamento coletivo de livros de autores capixabas. Foram distribuídos exemplares das 22 obras produzidas por autores contemplados pelo edital de Produção Literária e Incentivo à Leitura, do Funcultura, por meio da Secult, abrangendo gêneros como poesia, romance, ficção científica, contos, livro-reportagem e histórias infantojuvenis. O público também pôde participar de sessões de autógrafos com os escritores, fortalecendo o vínculo entre leitores e a produção literária do Espírito Santo.

Algumas obras que eu adquiri no lançamento

Confira a lista das obras que foram lançadas e distribuídas:

A Árvore do Amor – Rodrigo Marvila Peçanha (Romance)
A Casa de Esgueio – Luiz Fernando Bernardes (Infantojuvenil)
A Duração da Sombra – Fernanda Nali (Poesia)
A verdadeira música popular capixaba – Julier Marconcini de Melo (Música)
Agridoce – Elaine Dal Gobbo (Crônica)
Bolhas de Sabão – Elijance Marques (Infantojuvenil)
Contos de fantasia, da imaginação e de perdição – Dejair Paulo (Terror)
Crônicas de Resistência e outras histórias – Luciene Carla Corrêa (Crônica)
Elefantes – Sidney Spacini (Conto)
Encaracoladas – Luiza Vitorio (Poesia)
Galope – Fran Bernardes (Ficção)
Há uma beleza disforme nas coisas do fim – Marília Cafe (Poesia)
Identidade Pomerana: Uma viagem formativa desvelando conflitos soterrados – Swami Cordeiro Bérgamo e Sandra Soares Della Fonte (História)
Ku sanga: práticas de ensino da arte para as relações étnicas-raciais– Tatiana Rosa (Arte)
Memorial D'inópia – Ana Sophia Brioschi Santos (Poesia)
Memórias e Fantasias de um Combatente – Francisco Celso Calmon (Biografia)
Mulheres Capixabas e suas Histórias – Bárbara Pérez (Contos e Crônicas)
Nil – Reyan Perovano (Infantojuvenil)
O Caboclo do Rio Doce – Claudia Viuvanegra (Infantojuvenil)
O Que É Isso, Companheira? – Márcio Miranda Moraes (Conto)
Onde se vê música: o lugar do videoclipe de rap do Espírito Santo – Luiz Eduardo Neves (Música)
Praças, bares e tambores: desvios de um centro em transformação – Camila Benezath (História)
Proezas de Joewalda – Waldo Motta (Poesia)

eu com Joana Herkenhoff, autora do livro
'Retratos com o tempo' (Editora Cousa, 2023)

eu com Luciene Carla C. Francelino, autora do livro
'Crônicas de resistência' (Editora Práxis, 2023)

eu com Reyan Perovano, autora do livro
'Nil' (Editora Maré, 2023)

eu com Fernanda Nali, autora do livro
'A duração da sombra' (Editora Fina, 2024)






Fonte: https://secult.es.gov.br/Not%C3%ADcia/governo-do-estado-lanca-projeto-lugares-de-ler-com-distribuicao-de-mais-de-100-livros-de-autores-capixabas#prettyPhoto

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Escorpião direto na língua [RESENHA]

 


“Impessoalidade não teremos, veracidade muito menos, mas talvez uma coleção de músicas latinas, gozos e gemidos, sangue, devaneios e amor.” Pág. 43

Já na dedicatória do livro a autora já nos mostra o que se seguirá, dedicando aquelas páginas aos seus avós, indicando uma cartografia sanguínea da Ediphôn.

“Encontra, os olhos brilham de amor tanto quanto de temor
Agora é hora de experimentar seu primeiro vestido[…]
Era o que sempre havia procurado
Um tecido teceu abertura de caminhos pra’quele corpo” - Pág. 31

Em um dos primeiros textos ela questiona a obrigação do discurso político de seu corpo pela sociedade, sem espaço para arte, poesia, amor. Apenas a defesa de um corpo dissidente.

“Eu sou a elu, o ela, a elo que mantém tudo isso que vê na performance viva de alguém despida.” - Pág. 11

Temos nessa obra de textos rápidos e pungentes o desejo a importância de saber deixar algumas coisas irem e (re)aprender a ficar consigo, uma necessidade de descoberta do Eu e, consequentemente, a expô-lo ao Outro de forma poética e livre.

“… lá onde fui salva da dor que escapole pelas minhas ventosas eu fui muito mais eu e pude ser feliz.” - Pág. 17

Há questionamentos nos versos de Ediphôn e, em seu Escorpião sobra espaço à possibilidades, o que me fez mergulhar sem medo em seus textos e a gostar ainda mais da autora.

Lendo-a me reconectei com a literatura e, vale essa vírgula aqui, me voltei pra dentro, onde nos afastamos diariamente.

“De roupa
Quero
Mergulhar
Em
Você” - Pág. 19

‘Escorpião direto na língua’ é quase um livro de viagens, rotas indo da baía de Vitória até o Rio de Janeiro e passando por São Paulo até enfim ancorar na Bahia de todos os Santos.

Breves percursos da vida da autora em poemas, crônicas e prosas poéticas curtas, com seus textos autobiográficos que são uma delícia de ler.

“O condeno por ter feito a pele experimentar o amor
E depois rasgá-la todinha no asfalto” - Pág. 23

Ediphôn nos dosa com seus venenos em tons homeopáticos, falando de suas dores, seus medos, suas vulnerabilidades. A autora se permite também ao compartilhamento de suas urgências; de amores, viagens, desejos. Tudo o que nos torna humanos.

Impossível sair ileso e não se conectar com essa leitura.

“[…] hoje sonhei com o nosso carinho no entrelaçar de nossas peles, mas assumir jamais!
[…] Tenho pavor a dor e você tem o potencial de me causar a dor de uma picada de escorpião direto na língua.” - Pág. 42






Ediphôn Souza, 30, poeta, cronista, produtora cultural e professora de língua inglesa na rede municipal de Serra, também atuando com língua portuguesa e literatura brasileira, nascida em Nanuque-MG, e criada na periferia da Serra, mais precisamente em Novo Horizonte, pessoa trans não binária que através de suas vivências e transmutações físicas e emocionais coloca em suas Crônicas e Poesias ao longo dos últimos cinco anos o que é habitar um corpo político e vivo. Participou de antologias como "Identidades" e "Na zona", organizou um livro com a Academia Espírito-Santense de Letras sobre a escritora Lacy Ribeiro chamado "Olhar Marginal", publicou o livro de Crônicas "Luzes Vermelhas", é idealizadora e organizadora de projetos e coletivos como "GritArte" "Trans versos" e "Parede Marginal" além de diversas participações em eventos na Biblioteca Estadual, Biblioteca Municipal de Vitória, Casa Caos, Centro Cultural Eliziário Rangel, onde inclusive já fez parte de um webdoc sobre Novo Horizonte.







segunda-feira, 30 de junho de 2025

Vento Sul [RESENHA]

 




Carmélia, a cronista do povo

“… esta ilha é uma delícia…” - Pág. 58

Carmélia é uma escritora intensa, suas crônicas refletem os tempos vividos entre 60/70, sua melancolia e fossa nos ajuda a entender um período da nossa história.

“É natural e humano o pranto, tanto quanto o riso, na geração de onde eu vim e na geração deste tempo que nos foi dado para viver. Sou decididamente uma jovem velha que tem vivido depressa e às vezes choro porque me sinto triste. Isto não impede, todavia, que eu me saiba uma pessoa perdidamente feliz.” - Pág. 34

Carmélia M. de Souza foi uma das maiores cronistas do Espírito Santo, ela abriu caminho para outras que vieram depois, e vento sul é seu único livro publicado, um compilado de seus textos por seu amigo o escritor Amylton de Almeida.

“…esta poesia jamais deixou de existir em nós. Nós, que as vezes ainda cantamos de noite, baixinho. Nós, que estamos vindo de uma geração que ainda insiste em fazer de sua canção um grito de amor e de protesto. Uma geração que aprendeu a esperar de joelhos, enquanto vai cantando a sua poesia machucada, por causa do cansaço, da dor, do inconformismo e da esperança, que não conseguem, apesar de tudo, nos tornar amargos ou nos envelhecer…” - Pág. 115

Quase sempre afundada na fossa, fã e hater da cantora Maysa, mas otimista no fim, neste livro Carmélia nos presenteia com uma obra lúcida e gostosa de ler, trazendo temas como a sua crise existencial, política, viagens, declarações de amor e até cartas à amigos queridos.

“Busquei imagens de um tempo em todas as esquinas, a impossível promessa e o impossível gesto. E só encontrei mesmo o sabor irremediável das coisas interrompidas, dos momentos doces, que ali ficaram para nunca mais.” - Pág. 156

Carmélia M. de Souza foi um evento, daqueles frios e fortes que abalam estruturas, que faz dançar as folhas das árvores e romper ondas salgadas do mar. Assim também é o livro ‘Vento Sul’, fotografia de um tempo pelo olhar de alguém que soube vivê-lo.

“O resto é nada, meu amor. O resto é apenas onde você não está.” - Págs. 104/105



Assista o filme 'Não se aproxime' AQUI!

Espero que tenha gostado,
me conte nos comentários e

Até breve!


sábado, 21 de junho de 2025

O pavão desiludido [RESENHA]

 

livro 'O pavão desiludido' (Edições Bloch, 1972)

“… a maioria dos adultos é infeliz por carregar nas costas a sua própria meninice mutilada.” - Pág. 106

Enfim li ‘O pavão desiludido’, romance mais famoso de José Carlos Oliveira. Ele, que é um dos maiores cronistas do Brasil, amigo de Clarice Lispector, mas pouco conhecido pelos leitores hoje em dia.

“A rua Gama Rosa se despenca ondulante da cidade alta e vai desembocar no necrotério. Nela se destacam alguns austeros sobrados de fachadas musguentas, cuja as janelas nunca se abrem, e por cujos portões só entram e saem pessoas de mais de 40 anos. São os netos celibatários de antigos aristocratas, hoje despojados de suas chácaras e brasões, e reduzidos à surdez e à demência, em cômodos atulhados de velhos móveis e de velhas paixões.” - Pág. 31

Gostei bastante do livro por se tratar de um romance autobiográfico, tendo como personagem principal ‘José Carlos’ (o Zé) e a família Oliveira.

“… o mar, esta língua esverdeada que se move no interior da paisagem montanhosa e colinífera, como se a cidade fosse uma grande boca satisfeita de hortelã… contemplou o mar. Era um encontro de dois tímidos.” - Pág. 53

O texto, dividido em trinta capítulos curtos, no estilo folhetim tão utilizado por autores clássicos como Machado de Assis, deixa a história que é pesada um pouco mais fluida.


“… estou decidido a extrair de minha garganta todos os cadáveres que por desventura nela estejam ainda enterrados.” - Pág. 104


A personagem conta sua vida desde seu nascimento, em Vitória do Espírito Santo, até a sua mudança para o Rio de Janeiro. Com suas descrições históricas de monumentos, bares, ruas e paisagens torna a experiência de leitura ainda mais rica.

“O verme privilegiado, que escapole em perfeitas condições da placenta intestinal, no princípio se ressente dessa libertação, julgando ter perdido a inocência.” - Pág. 115

O autor toca em temas bastante sensíveis nesta obra, tais como: estupro, suicídio, a miséria, abuso infantil e abandono. Assuntos que, naquela época, eram ainda tabus na sociedade brasileira.

“Roubaram-lhe o amor materno, e o nome do ladrão é Pedro Pinto de Oliveira. Violentando e matando sua linda filha pálida, ele introduziu o tema do incesto na relação pais-filhos.” - Pág. 119

Minha única reclamação quanto a este livro é que o final é aberto, e eu não curto muito, mas funciona pela proposta que o autor quis trazer.

Espero que tenha gostado,
até a próxima!